O SEDEVACANTISMO
A questão do sedevacantismo foi levantada por muitos, e Dom Lefebvre,
ele mesmo, se perguntou como era possível que um Papa presidisse à
destruição da Igreja. “Pois, enfim, um grave problema
se impõe à consciência e à fé de todos os
católicos desde o pontificado de Paulo VI, dizia Dom Lefebvre numa
entrevista concedida ao jornal Figaro em agosto de 1976. Como um Papa, verdadeiro
sucessor de Pedro, ao qual não falta a assistência do Espírito
Santo, pode presidir à destruição da Igreja, a mais profunda
e a mais extensa de toda a sua história, num espaço de tempo
tão curto, coisa que nenhum heresiarca jamais conseguiu fazer?”(1)
“Temos verdadeiramente um Papa ou um intruso sentado sobre o trono de
Pedro? Bem-aventurados aqueles que viveram e morreram sem ter que formular
uma tal questão”. (2)
Mas Dom Lefebvre não deixou essa pergunta sem resposta. Mesmo se não
é possível esclarecer inteiramente essa questão, ou melhor,
por isso mesmo, por não se ter um ensinamento infalível do magistério
a esse respeito, uma atitude de reserva se impõe. “Fora as ocasiões
em que ele usa o seu carisma de infalibilidade, o Papa pode errar. Por que
então se escandalizar e dizer: ‘Então ele não é
Papa’, como Ario que se escandalizava a respeito das humilhações
do Senhor que dizia na sua Paixão: ‘Meu Deus, porque me abandonaste?’
e Ario concluía: ‘Então, ele não é Deus!’
Nós não sabemos até onde um Papa levado por não
sei que espírito ou formação, submetido a não
sei que pressões ou por negligência pode arrastar a Igreja a
perder a Fé, mas nós constatamos os fatos. Eu prefiro partir
deste princípio: nós devemos defender nossa Fé; eis aí
o nosso dever. Quanto a isso não há a menor sombra de dúvida”.
(3)
Mais claramente, Dom Lefebvre se perguntava: pode-se afirmar a heresia formal
do Papa? Quem tem autoridade para declarar isso? Quem fará as monições
previstas pelo Direito Canônico, necessárias para esta constatação?
Além disso, se o Papa não é Papa, em que situação
se encontra a Igreja? Quem nos indicará o futuro Papa? Como poderá
ele ser designado se não há mais cardeais, já que o Papa
atual não é Papa e portanto não pode criar validamente
novos cardeais? E Dom Lefebvre conclui: “Este espírito sedevacantista
é um espírito cismático”. E ainda: “A visibilidade
da Igreja é por demais necessária à sua existência
para que Deus possa omiti-la durante décadas”. (4)
Por essas razões, Dom Lefebvre dizia a seus padres e seminaristas:
“Eu não posso admitir que, dentro da Fraternidade, alguém
se recuse a rezar pelo Santo Padre e, portanto, se recuse a reconhecer que
há um Papa. Seria entrar num caminho que é um impasse. Eu não
quero conduzir os senhores a um impasse, pôr os senhores numa situação
impossível”. (5)
Mas, então, por que na diocese de Campos alguns acusam ou suspeitam
os padres da Fraternidade São Pio X de serem sedevacantistas? A resposta;
por mais curiosa que possa parecer, é a seguinte: aqueles que acusam
os padres da Fraternidade São Pio X de serem sedevacantistas raciocinam
da mesma maneira que os próprios sedevacantistas. Para eles; ou o Papa
é Papa, e então tudo o que ele diz é certo e tem que
ser acatado, ou então, se ele ensina erros graves, ele não é
Papa. A verdade é que este dilema é um falso dilema. A verdade
é que o Papa, mesmo sendo Papa, pode errar. Fora os casos em que o
Papa engaja a sua infalibilidade, ele pode errar. Hoje vemos o Papa errar
e difundir o erro e mesmo heresias. Denunciá-lo não é
sinal de sedevacantismo mas sim de catolicismo. Além do mais todos
os padres da Fraternidade São Pio X assinam um documento, antes de
sua ordenação, dizendo que reconhecem Bento XVI como Papa e
que rezarão publicamente por ele. Portanto os que atacam a Fraternidade
por causa disto não sabem o que dizem.
Quanto aos que defendem o sedevacantismo temos um conselho a dar. Um conselho
de prudência e de humildade. Se a Santa Igreja não definiu as
condições em que um Papa deixa de ser Papa, convém não
se avançar neste terreno, pois isto seria também amar novidades,
e abandonar os caminhos seguros da doutrina já definida. Amar a Tradição
da Igreja é justamente rejeitar novidades e firmar-se no terreno firme
do ensinamento do magistério infalível da Santa Igreja. Deve-se
também levar em conta o caráter próprio do modernismo
e do liberalismo, que admitem uma infinidade de matizes e de graus. Além
disso, as heresias do Papa reinante não são necessariamente
heresias formais; mas podem ser apenas materiais, como no caso daqueles que
não têm noção de estar indo contra o magistério
da Igreja. Em seguida, mesmo em caso de heresia formal, resta a questão
de saber se o Papa perde o pontificado nesse caso e como. Tudo isto nos convida
à sobriedade, e o exemplo de Dom Lefebvre e de Dom Antônio de
Castro Mayer deviam ser suficientes para nos preservar desta conclusão,
que peca por excesso ao querer dar, para não dizer impôr, solução
definitiva a uma questão à qual a Santa Igreja não só
não deu ainda solução.
O perigo do cisma é certo para os que seguem as doutrinas sedevacantistas.
A experiência mostra que isso não é apenas uma hipótese.
Já há vários Papas eleitos pelos sedevacantistas. Mais
de dez, ao que parece. Isto devia ser o suficiente para inspirar maior sobriedade
aos defensores de uma posição que leva a tais loucuras, pondo
em risco certo a salvação eterna de suas almas, e de muitas
outras.
1- Mgr. Tissier de Mallerais – Marcel lefebvre, éditions Clovis,
pág. 515
2- Ibidem – pág.533
3- Ibidem – pág.534
4- Ibidem – pág. 536
5- Ibidem – pág. 536
LANÇAMENTO
Estudo sobre o valor do magistério do Vaticano
II analisado à luz da teologia tradicional da Igreja, publicado pelo
Instituto Angelicum e Edições Mosteiro da Santa Cruz.
Valor com da obra com frete (tipo PAC) grátis: R$ 70,00