NATAL
“Mudei eu ou mudou o Natal?” –
perguntou Machado a seus botões, que deixaram a pergunta famosa mas
sem resposta. Ao longo do tempo surgiram várias respostas em torno
do eterno tema da não-eternidade das coisas, e creio que ninguém
deu a única resposta aceitável: Não mudara o Natal nem
mudara o homem. O Natal continua a ser o invariável, o inoxidável
mistério da natividade de Jesus, o Natal embora engatado nas engrenagens
das órbitas e dos calendários permanece imóvel, idêntico
a si mesmo.
Também o homem não mudou na sua frágil versatilidade,
e assim permanece no incerto não permanecer, correndo atrás
da própria sombra ou do próprio vento. E é aqui nesta
coincidência de duas tão diversas permanências que reside
toda a aflição do homem e todo o incompreensível mistério
do Natal. Porque o Natal não muda para que o homem mude. Sim, esta
é a primeira e fundamental mensagem de Natal trazida pelo Precursor.
João Batista anunciava o advento do constante, do Permanente, do Imóvel,
e clamava para que os homens mudassem.
Como assim? Então é preciso o profeta clamar para que o inquieto
coração do homem mude de ritmo, de direção, de
desejo? Não, em verdade ninguém precisa aconselhar o homem a
ser cambiante e instável, por si mesmo ele não para de dançar
e mudar. Mas o que o Natal veio ensinar foi justamente a mudança do
mudar. Sim, veio ensinar que não podemos parar, que não podemos
interromper a conversão, a mudança de vida, a penitência
ou metanóia ensinada pela voz que clamava no deserto. A permanência
que o Natal nos ensina é a permanente ascensão, a permanente
conversão. É a permanente e progressiva gestação
do Menino Jesus que quer nascer em nós como nasceu nos seio da Virgem
sempre virgem.
A verdadeira participação do Natal é essa em que, de
uma incomparável maneira, realizamos no mesmo ato uma imitação
de Cristo e uma imitação de Maria. Tudo o mais, ainda que multipliquemos
todos os recursos da humana ternura, será festa de solidariedade humana,
será data planetária, será efeméride, mas não
é Natal. Sem a dócil obediência de Maria não há
receptividade para o nascimento de Jesus em nós. O solene Natal cantado
pela Igreja, com ressonâncias de todos os séculos, com ecos dos
brados de João Batista e do cântico de Maria, só deseja
de nós o trabalho, a conversão que nos torne mais humildes e
mais puros, ou mais filhos de Maria, para termos com ela parte do prodigioso
mistério que nos torna de algum modo mães de nosso Pai.
Tudo isto revolve as arrumações habituais do mundo, e é
para revolvê-las, para trazer a mais revolucionária notícia
de uma outra ordem, de uma nova dimensão, que a Igreja anuncia a vinda
do Senhor como outrora, João Batista anunciou.
É terrível pensar que o mundo inteiro, em grossa e maciça
maioria, mesmo nos povos que se dizem cristãos, fizera do Natal de
Jesus e Maria uma festividade espessa e grosseira. Por isso mesmo o clamor
litúrgico de nossa Mãe tem, nos tempos que correm, o patético
timbre do grande anunciador da mudança essencial, da única que,
entre tantas e tantas reviravoltas, não queremos fazer. “Quem
és?” perguntaram a João, filho de Zacarias. Disse-lhes
ele: “Eu sou a voz do que clama no deserto, endireitai os caminhos do
Senhor.”
E aí está: o Natal não mudou, para que nós mudemos
o nosso vão mudar.
Gustavo Corção
AINDA O SEDEVACANTISMO
No nosso último suplemento falamos da grave
questão do sedevacantismo. Creio ser útil voltar no assunto,
pois ele é capital.
Toda a questão se resume em explicar como o Papa pode ser ao mesmo
tempo modernista e Papa. Se ele é modernista, ele não é
Papa, dizem os sedevacantistas, pois o modernista é um herege e um
herege não pertence mais à Igreja e, portanto, não sendo
membro da Igreja ele não pode ser a cabeça da Igreja.
Mais uma vez recorramos a Dom Lefebvre, o qual deu provas de uma grande sabedoria
em todo o seu combate pela Tradição. Os frutos de sua obra são
a melhor prova desta sabedoria. Mas isto não é a única
razão pela qual nós adotamos as suas conclusões. Vejamos,
pois, a sua argumentação. Vale a pena considerá-la com
toda a atenção. Dom Lefebvre diz:
“Não é porque eu digo que o Papa é infiel à
sua missão que eu concluo que ele não é mais Papa, ou
que ele é herético formal. Eu creio que é necessário
julgar os homens da Roma atual e aqueles que estão sob a sua influência,
como os Bispos, da mesma maneira como o Papa Pio IX e São Pio X consideravam
os liberais e os modernistas. O Papa Pio IX condenava os católicos
liberais. Ele tem mesmo esta frase terrível: “Os católicos
liberais são os piores inimigos da Igreja”. Que podia ele dizer
de mais forte? No entanto ele não disse: “Todos os católicos
liberais estão excomungados, fora da Igreja e que é necessário
lhes recusar a comunhão.” Não, ele considerava estes homens
como “os piores inimigos da Igreja” e, no entanto, ele não
os excomungou. O Santo Papa Pio X, na sua encíclica Pascendi, fez um
juízo igualmente severo sobre o modernismo, qualificando-o de “encruzilhada
de todas as heresias”. Eu não sei se é possível
fazer um juízo mais severo para condenar um movimento! Mas ele não
disse que todos os modernistas estavam doravante excomungados, fora da Igreja
e que era necessário lhes recusar a comunhão. Ele condenou alguns
dentre eles. Assim também, eu penso que, como esses dois Papas, nós
devemos julgar severamente os modernistas, mas não devemos considerá-los
necessariamente como estando fora da Igreja. Esta é a razão
pela qual eu não quero seguir os sedevacantistas que dizem: “Eles
são modernistas; o modernismo é a encruzilhada de todas as heresias;
logo os modernistas são heréticos; logo eles não estão
mais na comunhão da Igreja, logo não há mais Papa...”
Não se pode formular um julgamento de uma lógica tão
implacável. Há paixão e um pouco de orgulho nessa maneira
de julgar. Julguemos estes homens e os seus erros como os Papas eles mesmos
o fizeram. O Papa é modernista. Isto é evidente, como são
também o cardeal Ratzinger e vários homens próximos do
Papa. Mas nós devemos julgá-los como os Papas Pio IX e São
Pio X os julgaram”. (Revista Fideliter – n°57 – maio
de 1987, pág. 17).
Eis aí a posição de Dom Lefebvre. Ela é luminosa
e nos ajuda a compreender como a Fraternidade São Pio X pode combater
o modernismo de Bento XVI e ao mesmo tempo tratar com ele. Situação
difícil, sem dúvida, mas atitude realista que concilia o amor
da verdade e o amor das almas que é preciso converter, a começar
pela do próprio Papa.
ir. Tomás de Aquino, O.S.B.