BOLETIM

DA

SANTA CRUZ

 

Nº 28

 


O MOSTEIRO DA SANTA CRUZ
PASSADO, PRESENTE, FUTURO

 


A história da Santa Cruz começou no Calvário, onde Nosso Senhor regou o solo do nosso pobre mundo com seu Precioso Sangue.

Os tempos passaram e a semente do Santo Evangelho, regada por esse Sangue, fez germinar São Bento e a plêiade de santos que descendem de sua paternidade até nossos dias, passando pelo Rev. Père Muard, fundador de nossa pequena família dentro da grande família beneditina.

O Père Muard engendrou numerosos filhos, dentre os quais, Dom Gérard Calvet, que fundou o mosteiro Sainte-Marie-Madeleine em Bédoin, Vaucluse. Foi lá que nosso bem-aventurado pai São Bento começou a formar nossa alma em companhia de monges que levavam uma vida “pobre, humilde e mortificada”.

Que falar de Bédoin? Era uma feliz primavera, uma primavera frágil como tudo nesse mundo. Os pontos fortes eram a vida litúrgica, a generosidade, o espírito de família, os conferencistas, hóspedes e pregadores que por lá passavam entre os quais pude conhecer ou rever o Rev. Père Eugène de Villeurbanne, OFM (fundador dos capuchinhos de Morgon), o Padre Coache, o Padre Barielle, o Padre Le Boulch, o Padre Lecareux, o Padre Chalmey, Jean Madiran, Pierre Virion, Huggues Kéraly, o coronel Argoud, Gustave Thibon, já atingido de um certo cepticismo, Gustavo Corção, que viera para os votos perpétuos de um de seus discípulos, etc.

O próprio Dom Lefebvre passava por lá de vez em quando e em 1975 (ano do falecimento do Pe. Calmel OP, que tanto nos ajudou no início da fundação), conferiu as ordens menores aos irmãos Jehan de Belleville e Joseph Vannier. Isso nos valeu a exclusão da ordem beneditina e uma suspensão a divinis para Dom Gérard. Esses eram os bons tempos de Bédoin, tempo de fidelidade, tempo de fé, de amor da Santa Igreja e das almas que custaram tanto a Nosso Senhor.

Entretanto, uma coisa faltava em Bédoin. Os estudos. Não digo que não estudássemos nem que o nível intelectual fosse medíocre. Não. Mas faltava essa continuidade que forma os habitus filosóficos e teológicos tão necessários aos sacerdotes, hoje mais do que nunca. Isso, entretanto, era compensado em parte pelos freqüentes contatos com a Fraternidade São Pio X, por uma organização progressiva dos estudos e sobretudo pelos laços pessoais com Dom Marcel Lefebvre.

Depois veio o Barroux. Teve-se de se empenhar muito. Os trabalhos eram pesados no começo e todos se esforçaram.

Além disso, havia também as irmãs de Uzès, desde a época de Bédoin. Era uma bênção da Providência, porque a comunidade era fervorosa, edificando padres e leigos que por lá passavam.

Mas o inimigo, como um leão rugidor, rondava essas belas comunidades. Em 1984, foi previsto um acordo separado com Roma. Salvos na última hora por Dom Lefebvre, estávamos mesmo assim um pouco inquietos. Faltava segurança doutrinal à comunidade e alguns tinham contatos com autores mais ou menos progressistas. A inerrância das Sagradas Escrituras era posta em dúvida pelo próprio professor de Sagrada Escritura. As reformas litúrgicas de Paulo VI eram vistas com um olhar que se dizia crítico mas que traía uma certa boa vontade da parte de alguns. Além disso, a ascendência de Dom Lefebvre sobre os monges não era mais a mesma que anteriormente.

Algumas mudanças litúrgicas acabaram sendo introduzidas, inspiradas nas reformas de 1965 e um “Amém” cantado por toda a comunidade foi acrescentado ao fim do Evangelho. Interpelado por um monge, Dom Gérard responde: “Meu pequeno irmão, mais tarde a Igreja nos agradecerá por ter encontrado a fórmula”.

Foi nesse ambiente doutrinal incerto que a fundação de Santa Cruz foi decidida. Um generoso benfeitor, Senhor Sileno José Ferreira da Costa, nos oferece um terreno em Nova Friburgo (cidade fundada por suíços vindos de Fribourg no século XIX), nas montanhas do Estado do Rio de Janeiro.

Dom José Vannier e eu partimos no fim de 1986, sem esquecer de passar por Ecône para dizer adeus a Dom Lefebvre e escutá-lo, sobretudo. A primeira reunião de Assis tinha acabado de acontecer. Já era um sinal da Providência para Monsenhor, que pensava havia muitos anos na questão das sagrações.

Chegados ao Brasil, fomos conhecer o lugar que nos foi oferecido. Uma propriedade bem isolada, a 24 km do centro da cidade; ao mesmo tempo que nos protege, a dificuldade de acesso desencoraja certos fiéis que quereriam vir nos visitar com mais freqüência. Uma outra possibilidade foi proposta também mas, evidentemente, não havia porque hesitar. A escolha se impunha. Era em Nova Friburgo que Santa Cruz ia nascer.

Dom José volta então para a França a fim de buscar os outros membros da nossa comunidade: Dom João da Cruz, irmão Plácido e irmão Maria. Seis meses mais tarde, irmão Paulo, nosso carpinteiro, vem unir-se a nós. Já estávamos em 1987.

Em 1988 a bomba explode. Dom Gérard fez alguns acordos com Roma, acordos anunciados em 1984. “Roma nos dá tudo e não nos pede nada” dizia ele. Roma pedia muito mais do que dava. O resultado foi a ruptura com o Barroux. Feliz ruptura que nos livrou de um terrível golpe do demônio. Infeliz ruptura porque nosso apostolado em Nova Friburgo, sobretudo ao redor do mosteiro, recebeu um profundo golpe: “Os monges estão brigando entre eles!”

Mas o bom Deus não se deixa vencer em generosidade. A comunidade cresceu apesar de tudo. Até mesmo irmãs vieram se juntar à família. Nossos padres foram ordenados, e o primeiro, Dom Anjo, foi designado para fundar na França.

Depois de longas preparações, nossos monges partem para a França, respondendo a um desejo de Dom Lefebvre que Mr. Cagnon exprimia no Fideliter nesses termos:

“É muito bonito o que fazem no Brasil, mas é longe da Europa. Não pensam em fazer uma fundação na França, para a qual as vocações talvez se dirigiriam mais facilmente?”

E então foi feita!

O presente

Depois do passado, falemos do presente. Santa Cruz conta com nove monges. É pouco. Mas é o preço que deveria ser pago para fundar Bellaigue. Entretanto, não é tão pouco assim como parece, pois são monges exercitados: cinco professos perpétuos dos quais o mais antigo tem trinta e um anos de vida religiosa, um professo temporário, dois noviços e um postulante, sem contar alguns pedidos para admissão.

Ao nosso redor uma pequena paróquia se formou, da qual já saiu uma vocação beneditina. Quatro outras, não sendo daqui, decidiram-se ou foram confirmadas aqui. Outras esperam na oração e no silêncio.

Agora passemos ao mosteiro definitivo. Dom Gérard nos tinha dado a ordem de construir primeiramente algo provisório e somente fazer o empreendimento definitivo depois de ter conhecido bem o terreno e dispor dos meios. Mr. Jean Paul Robain, arquiteto que ajuda Bellaigue, Morgon, Ruffec, e os padres da Fraternidade São Pio X, sem falar dos diversos serviços já prestados através de toda a França, nos fez um desenho de um bonito projeto cuja concretização protegerá nossa vida monástica e nos permitirá ter o espaço necessário na igreja para as belas cerimônias litúrgicas.

Tem-se também de continuar a viver, a sustentar a escola que vem preservando a alma das crianças dos escândalos de que fala Nosso Senhor; e não podemos esquecer da manutenção da construção atual e dos reparos que sempre têm de ser feitos.

É por causa disso que lançamos um apelo. E esse apelo é duplo. Ajudai-nos a construir. Ajudai-nos também a encher as nossas construções. Eu me explico, e, para isso, passemos agora à terceira parte de nosso assunto.

O futuro

O Brasil é um país grande como a Europa. Por todos os lados há almas que esperam que se lhes salvem das sombras da morte. O fundo da alma brasileira continua ainda católico em grande parte, mas os estragos do progressismo são imensos e serão ainda maiores se nós não voarmos em direção de nossos irmãos.

O Rev. Père Muard quis que fôssemos beneditinos missionários. Daí nosso apelo. Vinde nos ajudar! “Partamos, partamos para fazer amar o bom Deus” dizia o Père Muard pouco antes de sua agonia.

É esse mesmo apelo que dirigimos aqui a todos aqueles que querem dar-se a esse belo trabalho de ser beneditino missionário ou de nos ajudar em nossa missão, mesmo sem ser religioso. Um beneditino missionário é um tipo diferente de missionário. Ele é primeiramente monge. Ele tem o ofício cantado, o levantar de noite, a vida comum, o estudo, o isolamento, a vida escondida e, entretanto, como outros São João Batista, há momentos em que ele sai de seu deserto para atear fogo nos quatro cantos do mundo (nos quatro cantos do Brasil, no nosso caso), ajudando todos aqueles que se dão a esse trabalho para responder ao voto de nosso Senhor:

“Eu vim trazer o fogo sobre a terra e qual não é meu desejo se não o de vê-lo acender?”

Todo nosso desejo está aqui. Arder de amor pela verdade e incendiar nosso próximo do mesmo amor.

Com a ajuda de Nossa Senhora e a vossa nós conseguiremos. Obrigado por vossa ajuda.


Ir. Tomás de Aquino OSB
Solenidade de São José,
Patrono da Igreja Universal


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