BOLETIM DA SANTA CRUZ
(extratos)
Santa Gertrudes e a confiança (Boletim nº 3, setembro de 1992, Doutrina monástica)
Profissão monástica (Boletim nº 5, setembro de 1993, Editorial)
O ideal monástico (Boletim nº 5, setembro de 1993, Doutrina monástica)
Sermão da Missa de Profissão de 24.VI.1995 (Boletim nº 9, julho de 1995)
A vida interior (Boletim nº 10, janeiro de 1996, Doutrina monástica)
D. Romain Banquet e Me. Marie Cronier (Boletim nº 12, setembro de 1996, Editorial)
Frases de Me. Marie Cronier (Boletim nº 12, setembro de 1996, Doutrina monástica)
Cerimônia de Profissão Perpétua (Boletim nº 14, agosto de 1997, Editorial)
Profissão, origem da nossa alegria (Boletim nº 14, agosto de 1997, Doutrina monástica)
A Santíssima Trindade (Boletim nº 15, abril de 1998, Doutrina monástica)
A Quaresma (Boletim nº 17, fevereiro de 1999, Suplemento)
Sentenças atribuídas a Santo Antão (Boletim nº 17, fevereiro de 1999, Doutrina monástica)
O outono do ano litúrgico (Boletim nº 18, setembro de 1999, Suplemento)
O Juízo Final (Boletim nº 18, setembro de 1999, Suplemento)
Ensinamentos de São Macário (Boletim nº 18, setembro de 1999, Doutrina monástica)
Te Deum por Bellaigue (Boletim nº 20, setembro de 2000, Editorial)
Sinais da vocação monástica (Boletim nº 20, setembro de 2000, Doutrina monástica)
Oração e ministério (Boletim nº 21, fevereiro de 2001, Doutrina monástica)
Verdade, caridade e contemplação (Boletim nº 22, junho de 2001, Doutrina monástica)
Combater o bom combate (Boletim nº 23, dezembro de 2001, Editorial)
Situação atual da Igreja (Boletim nº 24, abril de 2002, Editorial)
Os votos religiosos (Boletim nº 24, abril de 2002, Doutrina Monástica)
Porque não podemos concordar com os acordos de Campos (Boletim nº 25, outubro de 2002, Doutrina Monástica)
O Tempo da Quaresma (Boletim nº 26, fevereiro de 2003, Editorial)
Mosteiro da Santa Cruz - Passado, Presente, Futuro (Boletim nº 28)
Santa Gertrudes, monja do Mosteiro de Helfta, perto de Eisleben, na Saxônia, Alemanha, nasceu em 1256 e iniciou sua vida monástica aos 5 anos, tendo por mestra Santa Matilde de Hackeborn. Foi das maiores místicas medievais, morrendo aos 33 anos de idade, consumida menos pela doença do que pelo amor de Deus em que ardia. Entre outras virtudes, distinguiu-se pela virtude da confiança. Certa vez, tendo sofrido uma perigosa queda, sentiu-se tomada de grande alegria ao pensar que poderia, assim, partir imediatamente para Deus. Perguntaram-lhe se não temia morrer sem os sacramentos, ao que respondeu:
"Em verdade", diz ela, "eu desejo de todo o meu coração receber os sacramentos. Mas a vontade e a ordem de meu Deus serão para mim a melhor e a mais salutar preparação... Eu irei para Ele, portanto, com alegria, seja morte súbita ou prevista, sabendo que de qualquer maneira a misericórdia divina não poderá me faltar, e que sem ela nós não seríamos salvos, qualquer que seja o gênero de morte." (Arauto do Amor Divino, Livro I, capítulo X)
Àqueles que procuram a Deus de todo o coração, tudo concorre para o seu bem. Eis a grande lição que devemos recolher deste episódio e aplicá-la aos tempos em que vivemos, onde tantas almas se vêem privadas dos sacramentos, na espera de uma nova legião de sacerdotes fiéis. Rezemos, pois, pelas vocações, mas saibamos deixar tudo nas mãos da Providência Divina que nunca falta.
Profissão monástica
Caros amigos e benfeitores,
Com a presença de S. Exa. Dom Licínio Rangel, do Rev. Pe. Dominique Lagneau, superior do Seminário da Fraternidade São Pio X na Argentina, do Rev. Pe. Fernando Arêas Rifan, assim como de Mons. Ovídio Simon, das irmãs de Barcelos e de grande número de familiares e amigos, tivemos, no dia 11 de julho, a grande alegria de ver nosso irmão Anjo fazer os seus votos perpétuos após cinco anos e meio de vida monástica. Agora irmão Anjo está fixado definitivamente na feliz necessidade de viver só para Deus.
No sermão, foi lembrado o que constitui a essência da vida religiosa: "Ecce nos reliquimus omnia et secuti sumus te: quid ergo erit nobis?" (Mt. 19,27). "Eis que abandonamos tudo e vos seguimos; qual será a nossa recompensa?" Com poucas palavras S. Pedro definiu a vida religiosa: deixar tudo e seguir Nosso Senhor. Não basta deixar tudo, é necessário seguir Nosso Senhor Jesus Cristo. Se deixamos tudo é por causa de Nosso Senhor Jesus Cristo que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Deixamos tudo porque sabemos que só Deus pode contentar nosso irrequieto coração. Deixamos tudo porque sabemos que só Deus é o verdadeiro tudo que procuramos, porque sabemos que fomos criados para Deus e que devemos amá-lo acima de tudo. Aliás, todo homem é chamado a amar a Deus sobre todas as coisas.
Mas se o 1º mandamento da lei de Deus, amar a Deus sobre todas as coisas, é único e o é para todos, os caminhos que a ele conduzem são variados. O religioso escolhe o caminho mais curto, na pressa de aí chegar. Essa escolha é obra da graça divina que atrai uma alma ao serviço de Deus. Mas o que retarda o homem em sua marcha para Deus? O apego às riquezas, aos prazeres, e à vontade própria. Tudo isso divide o coração do homem, divide sua atenção, divide as suas forças. Ora, o religioso faz o que diz o salmo 58: "Fortitudinem meam ad te custodiam", "Guardarei para vós a minha força". O religioso unifica sua vida em vista de um único objetivo: a união com Deus, afastando de si tudo o que, mesmo lícito, o impediria de entregar-se inteiramente ao serviço de Deus. Riquezas? Ele renuncia por amor a Deus. Casamento? Ele renuncia por amor a Deus. Sua vontade? Ele renuncia para seguir a Nosso Senhor, o seu Mestre, que disse: "Não vim para fazer a minha vontade mas a daquele que me enviou."O religioso sabe que a vontade divina resume todos os bens. Com São Bernardo, ele sabe que a vontade de Deus criou o céu, e a vontade própria o inferno. Ele sabe que foi pela desobediência que nossos primeiros pais perderam o Paraíso. Eis porque os religiosos renunciam à sua vontade, mesmo que seja lícito conservá-la, para só fazer a vontade de Deus e assim merecerem por uma obediência mais perfeita o que havia sido perdido pela desobediência.
Em suma ,o religioso deixa tudo: "casa, irmão, irmã, pai, mãe, herança e até a própria vontade". "Há alguns", diz São Gregório Magno, "que não se reservam nada. Seus pensamentos, suas línguas, suas vidas, tudo o que podem ter em bens eles o imolam ao Deus Todo-Poderoso." (Com. sobre Ezequiel Hom. 20).
E Santo Tomás de Aquino acrescenta: "Dá-se o nome de religioso àqueles que se consagram inteiramente ao serviço de Deus e se oferecem, por assim dizer, em holocausto a Deus"(IIa. IIae. q. 186 a.1). O holocausto era, entre todos os sacrifícios do Antigo Testamento , o mais perfeito. No holocausto, a vítima era inteiramente consumida pelo fogo, imagem do sacrifício de Nosso Senhor na Cruz, inteiramente consumido pelo fogo da caridade. É esse modelo que o religioso, apesar de sua indignidade e imperfeição, deseja imitar, com a graça de Deus.
Mas São Pedro pergunta: Quid ergo erit nobis? Qual será a nossa recompensa? Ora, Deus não se deixa vencer em generosidade. Àquele que se entrega todo a Ele, Ele começa por perdoar os seus pecados , pois se "a esmola como diz o profeta Daniel (4,24), resgata os pecados", quanto mais o dom total de si mesmo. Assim lemos em Santo Tomás que é uma doutrina fundada na razão pretender que, pela entrada em religião, se obtém o perdão dos pecados e que os antigos padres do deserto ensinavam que todos os que entravam em religião recebiam a mesma graça que os batizados (IIa IIae. q. 189 c.3 ad 3 um). Assim, Santa Teresinha chama a sua profissão religiosa de sua segunda veste batismal. Isto se explica se considerarmos que a vida religiosa se assemelha ao martírio, o qual também apaga todos os pecados. Certa vez, Santa Gertrudes viu no céu uma legião de religiosos que caminhavam trazendo nas mãos as palmas do martírio. Indagando a Nosso Senhor a razão de tal privilégio ela obteve como resposta que os religiosos, tal como os mártires, vertiam o seu sangue, não de uma só vez, mas gota a gota, pela observância quotidiana de suas santas regras.
Foi lembrada também no sermão a figura do Rev. D. Jean-Baptiste Muard, fundador da Congregação Beneditina à qual pertencemos. Antes de fundar nossa Congregação, o Rev. Pe. Muard fez uma peregrinação à pé até Roma para obter junto à Cátedra de São Pedro as luzes de que necessitava. Pelo caminho passou em Ars para consultar São João Batista Maria Vianney e lá teve a consolação de escutar as seguintes palavras: "Oh! Sim, é isso! É a vontade de Deus! Deus o quer certamente. É a vontade de Deus."E ao irmão que acompanhava o Revdo. Pe. Muard o Cura d'Ars disse: Vá, meu filho, siga-o. Deus o cumulará de graças. É a vontade de Deus!
Nosso irmão Anjo é o primeiro a fazer seus votos perpétuos desde o início de nossa fundação. Se Deus quiser será ordenado diácono no fim deste ano, esperando o dia em que poderá celebrar o Santo Sacrifício e distribuir a santa comunhão a seus irmãos e amigos.
ir. Tomás de Aquino O.S.B.
prior
Cum exsultatione et simplicitate cordis.
(Com alegria e simplicidade de coração.
Atos 2, 46.)
Dom Germain Morin , no seu livro "O ideal monástico e a vida cristã dos primeiros dias", nos descreve o ideal monástico como sendo a reprodução e a perpetuação até o fim dos tempos do espírito e das tradições da Igreja nos primeiros séculos. Ora, no Ato dos Apóstolos está dito que os primeiros cristãos viviam com alegria e simplicidade de coração.
A alegria é, juntamente com a paz, um fruto da caridade. E a simplicidade, o que é? Santo Agostinho nos diz que a "simplicidade consiste em nada possuir que se possa perder"(dicitur simplex, cui non sit aliquid habere quod vel amittere possit De Civitate Dei 1.11 c.10 n.2). Bela definição! Não possuir nada que se possa perder. Eis o ideal dos monges Eis o ideal de todo cristão. Possuir a Deus e possuí-lo para sempre. É por isso que o monge deixa tudo já nessa vida pois ele sabe que terá de perder um dia bens, relações e vontade própria. Desde já ele quer possuir o que possuirá no Céu: Deus e tudo em Deus. Assim sua vida se simplifica, sua alma se simplifica, seu esforço se concentra numa só coisa. "Uma só coisa peço ao Senhor e a busco ardentemente: habitar no seu templo todos os dias de minha vida."(Salmo 26,4).
"No sentido rigoroso", diz Dom Morin, "a simplicidade, por certo, pertence só a Deus; mas qual é a razão de ser de nossa vida monástica, qual a razão da vida cristã em seus primórdios, senão a de procurarmos aproximar-nos de Deus continuamente até que por fim cheguemos a tocá-lo: quaerere Deum, si forte attrectent eum? Para que busque a Deus e o encontre. (Atos 17,27).
Eis a razão dos votos que fazem os religiosos. Eis aí também a finalidade e o objetivo de toda a vida cristã, pois, religioso, padre ou leigo, todos nós só temos um fim que é Deus.
Sermão da Missa de Profissão de 24.VI.1995
(por D. Tomás de Aquino O.S.B., prior)
Caríssimo irmão André, como a Abraão, Deus lhe disse aquela palavra que é o resumo da vida religiosa e monástica: Egredere(Egredere de terra tua et de cognatione tua et de domo patris tui- Sai de tua terra, de tua parentela e da casa de teu pai. Gên. XII, 1 ) Saia. Como Abraão e como São João Batista, que festejamos hoje, o senhor saiu da casa paterna e foi para onde a Providência lhe indicou. Abraão partiu para a terra prometida, São João Batista para o deserto, e o senhor para o claustro.
Mas essa saída, essa partida de sua pátria, de sua cidade natal não foi senão o primeiro passo nesse caminho que leva a Deus. Chegando ao mosteiro, São Bento lhe repetiu a mesma palavra: Egredere. Saia. Saia de sua vontade própria, saia de seu apego aos bens e prazeres, mesmo legítimos, deste mundo.
Assim o senhor escutou essa palavra austera, e o senhor experimentou como é difícil realizá-la. Sair de si mesmo, abandonar o que temos de mais caro, isto é, nós mesmos com nossos desejos, inclinações, preferências, etc.
Sair de si mesmo é como morrer a si mesmo.
E percorrendo a Santa Regra e o nosso horário monástico, o senhor constatou que a que a palavra de São Bento era formal. Morrer. Renunciar-se. São Bento parece severo em demasia. Parece sem piedade. Tudo ele regula. A tudo ele impõe a orientação desse mesmo princípio. A natureza parece que não suportará tal regime. Mas não, pois São Bento nos diz ele mesmo: Se aparecer alguma coisa de um pouco mais rigorosa, ditada por motivo de eqüidade, para emenda dos vícios ou conservação da caridade, não fujas logo, tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito início.(Regra de São Bento, Prólogo).
Sim, o início é estreito. Se o coração de Nosso Senhor é mais vasto que o universo inteiro, sua entrada é estreita, da estreiteza de uma ferida de lança, de um corte feito por uma lâmina afiada. O mundo propõe uma via larga mas que conduz à estreiteza do inferno. Nosso Senhor, Ele, propõe uma via estreita, mas que conduz à dilatação da caridade, à vastidão do coração de Deus e do céu que não é senão Deus mesmo. Por isso Nosso Pai São Bento acrescenta: Mas com o progresso da vida monástica e da fé, o coração se dilata e com inenarrável doçura de amor se percorre o caminho dos mandamentos de Deus.(Regra de São Bento, Prólogo).
Já nesta vida, no meio das provações, o senhor experimentará a doçura de amar a Deus sobre todas as coisas. A alegria perfeita é para o Céu, mas desde já, aqui na terra, está reservada a paz e a alegria para aqueles que praticam a caridade perfeita, esperando o superabundante gozo da visão beatífica. Por essa razão Deus, ao chamar Abraão, não lhe diz apenas: Egredere. Saia. Abandone. Parta. Mas também et veni in terram quam monstravero tibi. Venha à terra que te mostrarei(Gên. XII, 1). Que terra é essa? Essa terra é ao mesmo tempo o seu Sagrado Coração, o mosteiro, a santidade, o Céu. Tudo, enfim, que é dominado pelo espírito de Deus.
Mas como se entra nessa terra? Se entra pela Fé. Só a Fé o assegura da necessidade dessa saída e dessa entrada. Só a Fé o assegura de que a vida religiosa é um ganho e não uma perda. Só a Fé o assegura de que esta Regra de São Bento é um caminho verdadeiro para os bens celestes. A Fé lhe trouxe até aqui e ela lhe ajudará a aqui permanecer. Ela é a sua luz. Mas haverá dias em que essa luz parecerá se obscurecer como um dia encoberto por negras nuvens. Nessas horas de provação para a inteligência, a alma deverá abraçar fortemente a Esperança, certo de que ela não decepciona nunca, certo de que ela não abandona os que se apoiam nela. E se a chama da Fé e a da Esperança vierem a ser provadas a ponto de vacilarem sob a veemência das tentações, então lhe restará a Caridade da qual está dito que é forte como a morte(Cânt. VIII, 6). Então se realizará a palavra de Deus a Abraão: Faciamque te in gentem magnam et benedicam tibi (Farei de ti um grande povo e te abençoarei. Gên. XII, 2). Um grande povo, isto é, grandes virtudes na alma purificada, além do grande número de almas resgatadas pelo seu sacrifício; e Benedicam tibi. Deus lhe abençoará.
Assim o senhor chegará à razão de ser de vida religiosa: a santidade. Nosso fundador, o Revmo. D. Romain Banquet, nos deu como divisa: Sint sancti aut non sint. Sejam santos ou então não sejam. O que se entende: sejam santos ou então não sejam monges, não fiquem no mosteiro.
Sim, a santidade é nosso objetivo.É nossa ambição. Mesmo se não a obtivermos perfeitamente ela não deixará nunca de ser nosso único objetivo. Ela é o único necessário, ela é a pedra preciosa escondida no campo, que para comprá-la um homem vendeu tudo o que tinha.
Mas dirão alguns: Pode esquecer. Não conseguirá nada. A santidade não é fácil e é tão raro alguém chegar a ela, que se pode com segurança dizer que aqui não haverá nunca santos. O que é difícil demais é, de certo modo, impossível. É melhor desistir logo. A estes responderemos com as palavras de uma grande abadessa beneditina, a Revma. Madre de Franclieu: Crer tudo possível e mesmo fácil com a ajuda de Deus. Sim, somos fracos, mas não tememos ter grandes aspirações. Nosso auxílio está no nome do Senhor,que fez o céu e a terra(Sal. CXXIII, 8) e que, portanto, saberá fazer do senhor, caríssimo irmão André , um santo a mais para ornar o céu da santa Igreja, se o senhor for fiel.
Este é o nosso mais caro voto. Conte com seus irmãos que rezam com o senhor e pelo senhor e que desejam marchar para a santidade em sua companhia, isto é, na vida em comum, vida da forte raça dos cenobitas como nos chama São Bento.
Seguindo nosso Pai e Fundador nós obteremos certamente o que obteve Abraão e São João Batista, isto é, realizar a vocação pela qual, nos diz São Paulo, Deus nos abençoou (...) e nos escolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante dEle(Ef., I, 3-4)
Assim seja.
Este ano tomamos como resolução de comunidade a vida interior.
Se o mosteiro não for fiel à vida interior, diz Dom Romain, ele perde sua utilidade, ele desaparece. A causa que determinou a queda, o desaparecimento de certas ordens e de certos mosteiros: o exterior predominou; relaxou-se insensivelmente a vida interior. Como se procedeu à reforma? Retornou-se ao ponto de partida, à vida interior. Uma comunidade que quer se manter, se firmar, garantir seu futuro, que meio deve tomar? A vida interior.
Esta é a própria razão de ser dos mosteiros.
Instituindo as ordens religiosas após a era dos mártires, diz ainda Dom Romain, Deus se propôs um objetivo: conservar em sua Igreja até o fim dos séculos o tesouro da vida interior. É verdade que Deus pode conservar este tesouro mesmo no tumulto do século, mas em via ordinária, ele precisa para isso separar as pessoas da multidão, atraí-las à solidão e ao silêncio para lhes falar ao coração.
E qual é a atmosfera necessária a essa vida interior? A vida interior vive somente nas profundezas da renúncia; onde a renúncia é completa, aí se encontra a vida interior. Esta vale o que vale a nossa renúncia. Ela é Jesus se reproduzindo em nós. Jesus é Ele mesmo nossa vida interior. A vida interior é o Verbo que se comunica. A vida interior é amor, o amor santificante, vivificante, transformante. Somente chegam ao martírio as almas que viveram e vivem da vida interior. O sangue que corre então não é senão o transbordamento da vitalidade divina escondida nela. (Dom Romain Banquet)
Caros amigos e benfeitores,
Neste ano comemoramos o primeiro centenário das bênçãos abaciais de Dom Romain Banquet e da Revma. Madre Marie Cronier (em 23 e 24 de setembro respectivamente), considerados por nós, a justo título, como nossos fundadores juntamente com o Revmo. Pe. Jean-Baptiste Muard.
Que desejavam Dom Romain e Madre Marie Cronier? Fundar uma casa do Pe. Muard onde se viveria uma vida pobre, humilde e mortificada.
O Pe. Muard, morto prematuramente em 1854, não pudera deixar à sua Congregação dos Beneditinos do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria todas as bases canônicas e seus desenvolvimentos necessários. No entanto, ele tivera tempo de dar o principal à congregação nascente: ele lhe dera uma alma, ele lhe dera o espírito de São Bento.
O Pe. Muard, diz Dom Romain Banquet, é um dos grandes beneditinos do século XIX. De todos os beneditinos contemporâneos, é um dos mais santos, um dos mais autênticos como enviado de Deus, um dos mais semelhantes ao Patriarca dos monges, São Bento, e, entre os restauradores da Regra, um dos mais ousados e completos. (La Doctrine Monastique de Dom Romain Banquet, p. 21).
Dom Romain Banquet continuará a obra do Pe. Muard e a Revma. Madre Marie Cronier fundará o primeiro mosteiro de monjas da Congregação. Dom Delatte, segundo sucessor de Dom Guéranger como abade de Solesmes, apreciava nessa grande fundadora a coragem e a inteligência e sua correspondência nos dá testemunho disso.
São Pio X também exprimirá sua admiração ao saber da decisão de Madre Marie Cronier e de suas filhas de permanecer na França apesar da ordem governamental de expulsão das congregações religiosas em 1901. São mulheres fortes, dirá ele.
Que programa dava a Revma. Madre Marie Cronier às suas filhas? Podemos resumi-lo nestas linhas deixadas por ela:
1) Jesus quer a aplicação da Santa Regra.
2) Que, como filhas do Pe. Muard, nós nos conformemos aos seus pensamentos e que tomemos seu plano e sua vida. Homem de oração... suas filhas devem ser particularmente fiéis à oração. Jesus quer a verdadeira santidade. Ele ma descreveu generosa, ampla, jubilosa, larga, alegre, confiante para com Ele, tão bom. Era muito bela, era bem a verdadeira.
É sem dúvida o mesmo espírito e a mesma linguagem de Nosso Bem-aventurado Pai São Bento que a cada página da sua Santa Regra insiste que devemos correr pelos caminhos dos mandamentos de Deus, com certo temor a princípio, mas logo com o coração dilatado por aquele amor de Deus que, quando perfeito, expulsa o temor. (Regra de São Bento, Prólogo)
Que nos seja dado realizar esse programa e transmiti-lo também a outras almas.
ir. Tomás de Aquino O.S.B.
prior
Em homenagem aos 100 anos da bênção abacial de Me. Marie Cronier, nossas irmãs fizeram uma seleção de algumas frases de sua santa fundadora (extraídas do livro Tout est dans lAmour):
Que vossa caridade seja completa, profunda, íntima, interior, exterior. Deus é todo caridade, todo amor, e ele não quer ver nas comunidades senão a caridade e o amor.
O temor de Deus é a adoração feita de amor e de fidelidade ao dever. É por isso que a alma repleta desse temor divino teme até a sombra do pecado, mas ignora o escrúpulo.
Podemos ter certeza de que para nos levar à contemplação não há ajuda mais poderosa do que a liturgia. Os antigos tinham muita razão de chamar o saltério de meditatio; nele encontramos tudo o que é necessário à nossa alma, desde os mais sublimes elãs de amor, até os mais profundos suspiros de súplica e de arrependimento.
Nossa vida pertence ao louvor divino. É preciso que sejamos - e nós o somos pela vontade da Santa Igreja - a alma, o coração, a voz da criação.
O que deve ser a monja? Ela deve assemelhar-se à lâmpada do santuário, consumir-se no louvor divino.
A santidade não consiste nas palavras, nas belas frases, nos entusiasmos mesmo sinceros, nos desejos, na sensibilidade, em muitos atos, mas num só ato sem cessar renovado: o abandono absoluto de nós mesmos para que Jesus nos governe.
Se Deus estiver no íntimo de vosso coração, se vós aí O adorais profundamente, vós vos imolareis no altar do amor pelo duplo sacrifício da obediência exterior e interior.
A humildade é o vestíbulo do amor, o fundamento da santidade sem a qual tudo desabaria.
Os atos de amor mais elevados na nossa vida monástica são os que fazemos esquecendo-nos de nós mesmas.
O silêncio inicia em nós a adoração. Se uma coisa nos ultrapassa, só podemos realmente compreendê-la pelo silêncio.
Nada é pequeno no amor.
Caros amigos e benfeitores,
No dia 11 de julho, Solenidade de N. P. S. Bento, tivemos a alegria de receber os votos perpétuos de mais um irmão.
A cerimônia de profissão perpétua lembra a ordenação sacerdotal com a prostração do religioso, um prefácio especial e uma espécie de ladainha na qual se pede a Deus para o novo professo uma série de graças. A comunidade responde Amen a cada súplica:
| Sit vitae probábilis, Sit sápiens et húmilis, Sit sciéntia verus Obediéntia clarus, Convéniens in doctrina, In increpatiónibus immóbilis, In gravitáte decórus, In compassióne piíssimus, In operatióne cauta In tentatióne fortis, In iniúriis pátiens, In pace fixus, In eleemósynis promptus, In oratiónibus frequens, In misericórdia éfficax, In súbditis pius, Nec dit immemor quod abs |
Seja de vida recomendável, Tenha sabedoria e humildade, Tenha ciência verdadeira, Seja ilustre pela obediência, Exato na doutrina, Firme nas humilhações, Amável na seriedade, Devotado na compaixão, Solícito, vigilante e Forte na tentação, Paciente nas injúrias, Fixo na paz, Generoso nas esmolas, Assíduo nas orações, Eficaz na misericórdia, Paternal com os inferiores, E que não se esqueça de que
|
Todas essas graças podem ser resumidas numa só: in pace fixus, isto é, que Deus estabeleça definitivamente o novo professo nessa paz que o mundo não pode dar e que constitui em parte a felicidade dos eleitos no Céu.
Que essa graça não seja exclusiva dos monges, mas que ela se estenda a todos que procuram servir a Deus na verdade e na santidade.
ir. Tomás de Aquino O.S.B.
prior
Ponto de partida da nossa perfeição, a profissão é também a origem da nossa alegria. Na simplicidade do meu coração, Senhor, tudo vos ofereci com alegria é o grito da alma, no momento em que se entrega a Deus. E esta alegre generosidade da alma, Deus retribuiu-a com um acréscimo de alegria. Deus ama aquele que dá com alegria: Hilarem datorem diligit Deus, diz São Bento (Regra, c. V), repetindo a palavra do Apóstolo (II Cor. IX, 7). E como Deus é a fonte de toda a felicidade e nós abandonamos tudo para nos prendermos unicamente a Ele, diz-nos: Eu é que vou ser a tua recompensa, e recompensa a mais sublime: Ego merces tua magna nimis (Gên. XV, 1). Ego: eu próprio! A ninguém mais deixarei cumular os teus desejos, diz Deus à alma; e porque és minha hóstia, porque és toda minha, eu próprio serei tudo para ti, a tua herança, o teu bem, e em mim acharás a beatitude: Ego merces tua!
Sim, ó Senhor, de fato assim é! Pois o que há para mim no céu, ou que poderei eu desejar neste mundo, senão a Vós? Sois o Deus do meu coração e a parte que me coube em herança, para sempre: Quid enim mihi est in caelo, et a te quid volui super terram? Deus cordis mei et pars mea, Deus in aeternum (Os. LXXXII, 25-26).
Beato D. Columba Marmion O.S.B.
O que é a vida monástica senão uma vida na presença e na sociedade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, como nos diz São João na sua primeira epístola?
Eis aqui uma bela página do Pe. Emmanuel sobre essa vida em presença de Deus a qual é oferecida a todos, pois, religiosos ou não, somos todos chamados a viver na intimidade de Deus presente em nossas almas:
Dizia outrora o profeta Elias: Viva o Senhor na presença de quem estou.- Vivit Dominus in cujus conspectu sto. (III Reg.XVII,1)
Quanto mais devemos, nós cristãos, festejar a santa presença de Deus, já que esse grande Deus achou de seu agrado revelar-nos o mistério inefável da adorável Trindade?
Deus é um; porém em sua unidade Ele não é solitário. Vivendo, Ele subsiste em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O Pai é Deus; o Filho é Deus, porém não outro Deus que o Pai; o Espírito Santo é Deus, porém não outro Deus do que o Pai e o Filho.
Ó unidade tão divinamente fecunda!
Ó Trindade tão divinamente una!
Viva o Senhor na presença de quem estamos!
Viva o Pai de quem somos os filhos!
Viva o Filho, que se digna chamar-nos seus irmãos!
Viva o Espírito Santo, luz dos nossos corações, vida das nossas almas, e nosso introdutor junto ao Filho e ao Pai!
Quando temos a honra e a felicidade de estarmos na presença de Deus, é portanto realmente na presença do Pai e do Filho e do Espírito Santo que estamos.
Que bela, que santa e divina companhia, e como nos sentimos bem em sua presença! Nem todos têm a vantagem de ver os reis da terra, e muito menos de lhes falar; mas o grande Deus do Céu, podemos vê-lo e conversar com Ele todos os dias e a todo instante. Com quanto empenho devemos portanto procurar a sua presença, e diante dEle adorá-Lo, como os anjos de seu paraíso!
O Salmo no-lo ensina: Falou-Vos o meu coração; meu rosto Vos buscou, procurarei, ó Senhor, a Vossa face. (Sl XXVI,8)
Origem da Quaresma
Por falta de serem compreendidas, as instituições e as práticas caem em desuso, se reduzem a um hábito exterior ou são desnaturadas. Não é hoje o que acontece com a Quaresma? Por isso, nos é bastante necessário estudar a origem teológica e histórica da penitência quaresmal.
A graça não destrói a natureza, e a vida cristã assume os diversos aspectos da vida humana. Em toda profissão há períodos de treinamento e de formação em que a produção e a ação exteriores são diminuídas ou suspensas. É o momento da revisão, da reforma do material e do pessoal, do balanço que são tão apreciados hoje em dia. Ora, ser cristão é comparável a uma profissão ou a uma arte espiritual, como diz São Bento (Regra, Cap. IV). É por isso que a Igreja se impõe a cada ano esse retiro de quarenta dias.
Como a Quaresma apareceu na Igreja? Como ela se constituiu na forma que conhecemos atualmente? Da mesma forma que nas outras instituições litúrgicas, a prática da Igreja precedeu os documentos e a legislação. Vários Padres da Igreja afirmam que a Quaresma é de instituição apostólica (cfr. Dom Guéranger, Année liturgique, Temps du Carême. Nessa obra se encontra todo um histórico das observâncias quaresmais). Sabemos somente que no séc. III em Roma um jejum de três semanas precedia a festa de Páscoa. A partir do Concílio de Nicéia a Quaresma de quarenta dias é uma observância universal, apesar de que sua prática seja diversificada segundo as Igrejas locais.
Para além das circunstâncias e dos detalhes históricos, é preciso considerar que a Igreja é guiada pelo Espírito Santo. Já no Antigo Testamento as revelações e os benefícios divinos são precedidos de períodos de purificação marcados pelo número quarenta: Moisés passa quarenta dias no Monte Sinai; os exploradores da terra prometida a percorrem durante quarenta dias; os hebreus permanecem quarenta anos no deserto; o profeta Elias anda quarenta dias e quarenta noites até a montanha de Deus. É, enfim, o próprio exemplo do Salvador que conduz a Igreja a instituir esse período penitencial de quarenta dias.
A liturgia da Quaresma é muito rica. Os cantos e as leituras da Missa variam a cada dia. Essas Missas estão entre as mais antigas. As antífonas de Laudes são próprias para cada domingo. Não é possível imaginar que todo esse conjunto tenha surgido de uma vez da inteligência de São Gregório Magno ou... de uma comissão de experts. É o fruto da experiência e da tradição plurissecular da Igreja de Roma. Para compreender sua estrutura e seus textos é necessário se referir à sua história.
No tempo de São Gregório a antecipação da Quaresma para a Quarta-feira de Cinzas não existia. O primeiro dia da Quaresma era o primeiro domingo. Isso explica por que o Ofício Divino conserva, da Quarta-feira de Cinzas até o sábado seguinte, os textos do tempo per annum (tempo ordinário). É o primeiro domingo que introduz a Quaresma e lhe dá a nota geral.
Sendo o domingo dia em que não se faz jejum, este começava na primeira segunda-feira. O povo cristão de Roma se reunia após Noa (aproximadamente às 15 horas) numa basílica. Cantava-se o Intróito e um padre cantava a oração post collectam plebem (após a reunião do povo). Depois ia-se em procissão cantando as litanias (Kyrie eleison) para a igreja dita estacional, onde o Santo Sacrifício era celebrado. Ele terminava pela oração super populum que temos no final de cada Missa dos dias feriais da Quaresma. O sol estava então no poente. Era somente a partir desse momento que era permitido tomar algum alimento. Jejuava-se, portanto, até o pôr-do-sol, conforme a tradição antiga.
Várias Missas da Quaresma se explicam pela igreja estacional, Assim, a basílica de São Lourenço possuía um oratório dedicado à Santíssima Virgem. A esse caráter marial do edifício faz alusão a leitura evangélica (do III Domingo da Quaresma), com o elogio da Mãe de Deus [...] As outras partes da Missa se referem ao mártir titular(Dom Schuster, Liber sacramentorum, Vromant, 1929, t.3, p.118). Na quinta-feira da terceira semana, quando a estação era em São Cosme e Damião, médicos mártires, o evangelho é o da cura da sogra de São Pedro. Mas às vezes é difícil concluir se foi a escolha da igreja estacional que determinou a escolha dos textos ou o inverso.
Um outro fator presidiu a constituição das Missas. A Quaresma era um tempo de preparação para o batismo. Os catecúmenos que estavam inscritos para receber o batismo na noite pascal eram objeto de várias cerimônias durante toda a Quaresma. Essas cerimônias compreendiam instruções e exames sobre a doutrina cristã assim como os exorcismos. Várias Missas estão ligadas a essas cerimônias pré-batismais, em particular a Missa da quarta-feira da quarta semana. As mesmas considerações valem para os penitentes públicos para os quais a Quaresma era uma preparação à absolvição.
Por isso encontram-se na liturgia da Quaresma todos os aspectos da doutrina e da vida cristã. Ela contém todo um catecismo. Através dessa liturgia a Igreja, mãe e mestra dos povos cristãos, manifesta um gênio realmente especial para formá-los para a santidade e realizar nas almas dos fiéis, por meio de suas procissões, dos ritos e da salmodia sagrada, uma catequese tão sublime quanto frutuosa (Dom Schuster, op. cit., p.17).
A Quaresma está dividida em vários períodos:
- uma introdução de quatro dias, que vai da Quarta-feira de Cinzas até o sábado seguinte: ela foi acrescentada, depois de São Gregório Magno, com a finalidade de se observarem quarenta dias de jejum (seis semanas menos seis domingos fazem trinta e seis dias; é preciso, portanto, acrescentar quatro dias);
- quatro semanas do tempo da Quaresma: a atenção da Igreja está voltada para a penitência como instrumento de conversão;
- duas semanas do tempo da Paixão: a liturgia celebra a Paixão do Salvador; o aspecto místico sucede ao aspecto ascético; ela é um sacrifício, participação do Sacrifício de Cristo.
As duas primeiras semanas da Quaresma visam o combate cristão contra o demônio e suas tentações (evangelho da tentação de Cristo); a finalidade desse combate é transfigurarmo-nos a exemplo de Cristo (evangelho da Transfiguração). As duas semanas seguintes retomam esses dois temas do combate e da glória: vitória de Cristo sobre os demônios (evangelho de Cristo expulsando os demônios, alusão ao exorcismo); glória e riquezas da Igreja (Laetare Ierusalem, evangelho da multiplicação dos pães, anunciando a Eucaristia).
O combate do deserto
No primeiro domingo da Quaresma encontramos a orientação geral desse tempo litúrgico. É portanto na liturgia desse domingo, primeiramente no evangelho, que se encontra a teologia da Quaresma.
Cristo se retira para o deserto para ser aí tentado pelo diabo. Com que finalidade? Esse retiro no deserto e esse combate não aumentam em nada a graça e as virtudes de Cristo. O Salvador não tem necessidade (subjetivamente falando) de nenhuma preparação ao seu ministério público e ao combate final da Cruz. Mas os atos de Cristo estão sempre orientados para a Igreja. Ele assume o que deve ser cumprido pelo seu Corpo místico e pelos seus membros. Sua vida é o exemplo da nossa; por ela Ele é o mediador de todas as graças que recebemos e de todos os atos virtuosos que fazemos. Ele quis, pois, ser tentado para fazer de sua humanidade um exemplo apresentado à nossa imitação(S.Agostinho, Cidade de Deus, 9,21). Ele quis viver o combate que deve ser o de todo o cristão.
O combate contra o demônio e suas tentações é parte integrante da vida cristã e a Quaresma é um tempo privilegiado para esse combate. Daí a necessidade de entrar no deserto. O demônio nos ataca através das tentações usando os homens e as coisas como instrumentos. Aquele que se retira para o deserto (se não no sentido literal do termo, pelo menos por meio de um retiro, da vida monástica e da penitência) se separa, portanto, de tudo o que é suscetível de ser instrumento do demônio. Pode-se assim tomar certa distância com relação à vida quotidiana, observar a origem das tentações e ver mais claro sobre si mesmo. Pela solidão, pelo recolhimento, recusando as diversões ocasionadas pelas consolações do mundo, o homem está em face de si mesmo, em face de Deus, e... em face do demônio. A tentação vai então diminuir? Ao contrário, o demônio agirá de maneira mais espiritual, mais interior. Sobrevêm então as penas interiores, as tentações de todo tipo que o demônio produz mais fortemente utilizando todas as fraquezas de uma natureza que ele conhece bem. São enfim os combates diretos dos grandes santos como o Cura dArs, ou dos grandes solitários do Egito. Com os pobres cristãos comuns que somos, o demônio se contenta em utilizar os instrumentos que são as nossas paixões.
Não devemos ignorar também que os demônios não são todos igualmente ferozes ou apaixonados, não têm a mesma força e malícia. Os principiantes e os fracos só têm a combater os menos poderosos. Somente quando já tiver triunfado desses primeiros é que o atleta de Cristo deve gradualmente enfrentar batalhas mais rudes. As dificuldades da luta aumentam em proporção de nossas forças e de nossos progressos. É por isso que nenhum santo conseguiria sustentar a malícia de tais e tão numerosos inimigos, enfrentar seus embustes, suportar até mesmo sua crueldade e seu furor se Cristo, que preside a nossos combates como o mais clemente dos árbitros, não mantivesse a igualdade de forças entre nós e nossos adversários, não repelisse ou contivesse o ímpeto excessivo de seus assaltos, e não preparasse com a tentação o modo de poder suportá-la. (Cassiano, Conferências,7, 20).
O deserto é o lugar desse combate. Cristo o enfrenta em três tempos, segundo as três tentações fundamentais que são as três concupiscências: a concupiscência da carne, a soberba da vida e a concupiscência dos olhos.
A primeira tentação é a da concupiscência da carne: que estas pedras se convertam em pães. Ela concerne tudo o que está ligado aos prazeres do corpo, cada vez mais refinados e pervertidos hoje, em todos os domínios: música, espetáculos, diversões de todo gênero, vulgaridade, culto do corpo, idolatria dos astros do esporte e dos espetáculos, etc..
A segunda tentação é a da soberba ou do orgulho: lança-te daqui abaixo. Ela é bem manifesta hoje. A sociedade atual, levada por uma ideologia dos Direitos do homem, incita à inveja e à ambição, cultiva o espírito de independência e de reivindicação.
A terceira tentação é a da concupiscência dos olhos: tudo isto te darei. Essa concupiscência das riquezas é particularmente excitada pela organização da economia moderna que não cessa de suscitar necessidades factícias e artificiais. Em lugar de estar ao serviço das famílias, o sistema econômico não tem outro fim do que seu próprio desenvolvimento numa produção infinita de riquezas.
As três tentações de Cristo são bem atuais. Nós todos as experimentamos a títulos diversos. A Quaresma exige a penitência, em particular o jejum. Notemos, a propósito disso, que se jejua hoje por razões políticas, estéticas, esportivas; teme-se, porém, jejuar pela própria salvação eterna. Mas, além dessas indispensáveis mortificações corporais, a Quaresma implica numa revisão de todo o conjunto de costumes e concepções atuais. O combate espiritual engendra uma oposição radical ao mundo moderno.
Se tivéssemos de enfrentar com nossas próprias forças esse combate, o resultado seria sem esperança. Mas o combate cristão não é um combate de filósofos estóicos. O cristão combate sob a proteção de Deus. É o que exprime o salmo 90, que constitui o conjunto dos cantos da Missa do primeiro domingo da Quaresma: Aquele que se abriga sob a sombra do Altíssimo, permanece sob a proteção do Deus do céu. Ele diz ao Senhor: Vós sois o meu defensor e o meu refúgio; Vós sois o meu Deus em quem confio. O combatente está em paz e em segurança sob a proteção de Deus. Esse combate, é Nosso Senhor que o sustenta nos membros de seu corpo místico, após tê-lo enfrentado sozinho no tempo da sua vida terrestre.
Apliquemo-nos ao esforço, não desanimemos. Pois temos o Senhor como cooperador, como está escrito: Nós sabemos que tudo coopera para o bem dos que amam a Deus (Rom. 8, 28). Para não cair na estreiteza de espírito, é bom conservar no espírito estas palavras do Apóstolo; morro a cada dia (I Cor. 15, 31). Pois se continuássemos a viver como se fôssemos morrer a cada dia, não pecaríamos. Essa palavra significa que, quando nos levantamos todas as manhãs, devemos pensar que não veremos a noite, e ainda, quando vamos nos deitar, pensar que não despertaremos; pois naturalmente o termo de nossa vida não nos é conhecido, nem a medida fixada pela Providência. Pensando assim, não pecaremos, não nos apegaremos a nada, não nos deixaremos levar pela cólera contra ninguém, não ajuntaremos tesouros na terra; mas, como que esperando a morte a cada dia, seremos liberais para com todos e perdoaremos a todos; não conservaremos em nós nenhum movimento de luxúria, nem de nenhum outro prazer impuro; nós nos afastaremos disso imediatamente, assim como de toda agressão, permanecendo sempre na proximidade da morte, como já vendo o dia do julgamento. Pois um forte temor e a ameaça do sofrimento aniquilam a satisfação do prazer e despertam a alma que se inclina para a queda.
Penso que a graça do Espírito Santo invade bem depressa aqueles que de todo coração progridem no esforço e se impõem desde o início manter-se de pé e não dar lugar ao inimigo em nenhum combate. Além disso, o Espírito Santo, após tê-los chamado, faz tudo para a comodidade dos principiantes, para facilitar seu progresso no caminho da penitência; e em seguida mostra-lhes suas vias em toda sua verdadeira dificuldade. Ajudando-os em tudo, mostra-lhes quais são os esforços necessários da penitência, dela apresentando as regras e o exemplo, tanto para o corpo como para a alma, até conduzi-los à conversão perfeita a Deus, seu criador. Para isso, Ele os incita constantemente a exercitarem sua alma e seu corpo a fim de que, tendo santificado igualmente uma e outro, tornem-se igualmente dignos da herança da vida eterna: exercitar o corpo pelo jejum, o trabalho e as vigílias freqüentes; exercitar a alma pelos exercícios espirituais e pelo zelo em todos os serviços e atos de obediência realizados pelo corpo.
Quando o vento sopra tranqüilamente, todo navegador pode ter uma alta opinião de si mesmo e se envaidecer; mas quando acontece uma brusca mudança dos ventos é que se descobrem os timoneiros experimentados.
De diversas maneiras Nosso Senhor, por sua graça, purifica o homem por numerosas tentações, prova-o e o torna experimentado na conduta dos combates interiores, de modo que ele não é mais perturbado pelos pensamentos ou pela lembrança das iniqüidades ou pelas críticas dos homens; ele se humilha diante de Deus e deposita nEle sua esperança, estando sempre pronto a toda boa obra diante de Deus, como diz o profeta Davi: Meu coração está pronto, ó Deus, meu coração está pronto. Quero cantar-vos com toda a minha alma ao som alegre dos instrumentos. (Salmo 107,2). Pensai que sereis provados de alguma maneira por vossos irmãos, por meio da difamação e da injustiça, ou que sofrereis com o desalento de vossos colaboradores. Por isso, quando vos acontece algo de semelhante, conservai-vos firmemente de pé, não temais, não desanimeis; rendei graças a Deus por tudo isso, pois sem Ele nada de semelhante acontece; Ele o permite , pois enfrentar combates é necessário aos que servem a Deus; não será honrado por Deus aquele que, por Sua bondade, não tiver sido provado pelas tentações, pelos trabalhos, aborrecimentos e fraquezas, para poder se acostumar pela paciência a manter-se no bem.
A longa série de semanas depois de Pentecostes pode parecer monótona. No entanto, este tempo litúrgico não é uniforme: ele acompanha a sucessão contínua das estações da natureza. Os últimos meses do ano litúrgico, introduzidos pelas quatro têmporas de outono, apresentam um caráter próprio. Assim como os seres vivos encaminham-se para o sono do inverno, a Liturgia percorre o seu outono que irá terminar com a última semana depois de Pentecostes.
Tudo portanto orienta-se progressivamente para o término do ano, que simboliza o término do mundo.
Os domingos depois de Pentecostes
Com efeito, e cada vez mais explicitamente a partir do 16º domingo depois de Pentecostes, a perspectiva do juízo final e a espera da volta do Senhor repassam os textos da Liturgia, até se tornarem o objeto central da mesma no último domingo depois de Pentecostes. A parábola do evangelho do 16º domingo evoca já um convite a bodas, imagem das bodas eternas do Cordeiro. O evangelho do 17º domingo tem como objeto o versículo do Salmo 109: Senta-te à minha direita, até que eu tenha feito dos teus inimigos o escabelo dos teus pés: trata-se do triunfo final de Cristo.
A partir do 18º domingo o Intróito não é mais tirado dos Salmos, como até então, mas de vários livros proféticos - com exceção do 22º domingo, cujo Intróito é tirado do De profundis, correspondendo bem ao nosso exílio na terra e aos fins derradeiros. O Gradual do 18º domingo exprime a alegria dos cristãos a caminho da Jerusalém celeste: - Estive na alegria quando disseram-me: Iremos à Casa do Senhor!. O evangelho do 19º domingo retoma, de modo mais preciso ainda, a parábola do convite às bodas; desta vez, trata-se da resposta a ser dada e da advertência àquele que não estiver vestido para as núpcias: Jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choros e ranger de dentes.
No 20º domingo é ouvida a exortação do Apóstolo: Usai sabiamente o tempo, pois os dias são maus: ou seja, não vivais na indolência; não disperdiceis o tempo, mas utilizai-o para fazer a vossa salvação. O Ofertório é um canto de exílio: Perto dos rios de Babilônia, estávamos sentados e chorávamos ao lembrar de ti, Sião. Somos exilados nesta terra, e suspiramos pela pátria celeste. O evangelho do 21º domingo lembra-nos que teremos que prestar contas da administração de nossa vida, e que seremos julgados segundo a indulgência que tivermos mostrado para com o próximo. O versículo do Aleluia é um canto de libertação e de entrada na terra prometida: Quando Israel saiu do Egito, e a família de Jacó de junto de um povo bárbaro. A epístola do 22º domingo menciona duas vezes o dia de Jesus Cristo que deve nos encontrar fiéis e exemplares em perfeição.
O Intróito do 23º domingo será repetido até o final deste tempo litúrgico. Ele é tirado do profeta Jeremias: eu trarei de volta os vossos cativos de toda a parte onde estiverem dispersos. Cativos de nossos pecados, exilados e dispersos neste mundo, esperamos ser reunidos na pátria celeste, da qual somos os cidadãos e de onde aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso corpo de humilhação tornando-o semelhante ao Seu corpo glorioso (epístola do mesmo dia). Em esperança, e já pela vida da graça, podemos cantar: Vós nos livrastes dos nossos inimigos, Senhor (gradual do mesmo dia).
Os domingos transferidos
Após este 23º domingo encontram-se eventualmente os domingos após a Epifania, que foram transferidos. Os cantos são os mesmos dos do 23º domingo; somente são transferidos as orações, a epístola e o evangelho. É neste contexto de espera da parusia que devem então ser lidos os evangelhos desses domingos. Notemos assim a conclusão do evangelho do 3ºdomingo: Muitos virão do Oriente e do Ocidente e terão lugar no festim (...) os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores. No 4º domingo, o barco sacudido pelas águas da tempestade é o da Igreja; ela aguarda a volta do Salvador que estabelecerá a paz definitiva. O 5º domingo anuncia o julgamento: separação do bom grão e do joio, o primeiro destinado ao celeiro do Reino dos céus, e o outro ao fogo eterno do inferno. O evangelho do 6º domingo contém a parábola do grão de mostarda. Podemos ver aqui a expansão da Igreja que se estendeu pelo mundo inteiro; assim, não temos vergonha de nossa história e não estamos dispostos a nenhum arrependimento.
O último domingo
Enfim, este tempo litúrgico termina-se pela visão grandiosa da volta de Cristo: Assim como o relâmpago sai do Oriente e mostra-se até o Ocidente, assim será o advento do Filho do Homem. Esse retorno será precedido pela abominação da desolação e por uma tribulação da qual nenhuma carne seria salva, se não fosse abreviada por causa dos eleitos.
As leituras do ofício das Matinas do mês de novembro estão em harmonia com os domingos. Pois são lidos os livros dos profetas anunciando o julgamento das nações pagãs. Entre esses profetas, os mais notáveis são Ezequiel e Daniel, cujos livros contêm a descrição de grandiosas teofanias (Ezequiel, 1; Daniel, 10) que anunciam as do Apocalipse.
O santoral
A ordem litúrgica do temporal é realçada por várias festas cuja instituição é devida a circunstâncias históricas totalmente independentes do tempo litúrgico. Torna-se assim mais admirável ainda a sabedoria divina que governa a Igreja dispondo todas as coisas com número, peso e medida.
No dia 29 de setembro a Igreja festeja São Miguel e todos os anjos. São Miguel é o chefe das milícias angélicas cujo combate contra as de Satanás prossegue ao longo de toda a história e conhecerá a vitória final no último dia. São os anjos que reunirão os eleitos das extremidades do Universo.
O último domingo de outubro é consagrado a Cristo Rei. A Realeza de Cristo está presente ao longo de todo o ano litúrgico: na Epifania, no Domingo de Ramos, na Páscoa, na festa do Santíssimo Sacramento, no último domingo depois de Pentecostes. Qual é o interesse desta festa instituída no séc. XX? Ela também é orientada para o triunfo final de Cristo. Mas ela nos ensina que a Sua realeza não é apenas escatológica; não deve se realizar somente no término da história; ela não é apenas espiritual. Situada na proximidade do último dia do ano litúrgico, ainda que distinta, ela lembra (o que era desnecessário lembrar nos tempos de Cristandade) que a realeza de Cristo não é somente futura, mas atual, e que ela se realiza pelo poder temporal da Igreja.
Alguns dias mais tarde tem lugar a festa de Todos os Santos. A Igreja triunfante conhece já a beatitude. Com ela aguardamos a ressurreição e o triunfo final. Esta festa dá-nos a contemplar a liturgia da Jerusalém celeste: todos os Anjos estavam de pé em volta do trono, e caíram prosternados diante do trono, adorando a Deus. Esta beatitude, a Igreja padecente ainda a espera. A Igreja militante intercede por ela no dia seguinte. Porém a liturgia dos Finados, além de constituir uma súplica para as almas do Purgatório, faz também os vivos lembrarem fins derradeiros. O Dies Irae, Dia de Ira, mostra a ressurreição dos mortos para o julgamento, inspirando-nos um temor salutar.
Esta seqüência era primitivamente a do primeiro domingo do Advento. Com efeito, esse domingo também celebra o retorno do Senhor. Este movimento cíclico da liturgia é uma imagem da eterna imobilidade, e mostra que o advento de Cristo é o princípio e o termo do ano litúrgico, como é o princípio e o termo da nossa salvação: Deus quis o advento na humildade, tendo em vista o advento na glória. Cristo é o senhor e o termo da história. A vida da Igreja participa de sua eterna realeza. O ano litúrgico é um capítulo da vida do Corpo Místico, como também de nossa própria vida.
É esse fim do ano litúrgico que importa aos cristãos. O fim do ano civil - aliás arbitrário e que variou no decorrer da história - não concerne à vida cristã (notemos também que a solenização do dia 1º de janeiro é devida principalmente aos regimes políticos ateus, com a finalidade de eclipsar a festa de Natal). É durante esta última parte do tempo depois de Pentecostes que a Igreja convida-nos a considerar o nosso fim derradeiro, a nossa morte, da qual não sabemos nem o dia nem a hora. É a ocasião de nos arrependermos de nossas faltas durante o ano, de agradecer pelas graças recebidas - as de que temos consciência e as que ignoramos - e enfim, de implorar o auxílio de Deus para o novo ano que se abre. O grande objetivo, o único objetivo de nossa vida, é a Salvação.
Nota sobre o simbolismo dos tempos e das estações
A evocação da harmonia da Liturgia com a natureza e a palavra outono podem deixar perplexos aqueles dos nossos leitores que vivem fora da Europa, em particular no hemisfério sul. Não seria o caso de reverter a ordem litúrgica conforme as latitudes, ou de esquecer um simbolismo que parece fora de propósito?
Por que fixar-se assim em uma região da terra? É porque Nosso Senhor Jesus Cristo não é um princípio abstrato ou o resultado de uma experiência religiosa. A religião por Ele fundada não é o desenvolvimento de um sentimento religioso humano. Jesus Cristo é um homem situado precisamente na história, que nasceu e viveu na Palestina. A Igreja implantou-se primeiramente na bacia mediterrânea, principalmente no mundo greco-romano que, de certo modo, a encarnou. A inculturação leva à dissolução da religião cristã em um sentimento religioso inconsistente, ecumênico e mundialista.
Iterum venturus est cum gloria iudicare vivos et mortuos - Ele virá em glória para julgar os vivos e os mortos. Os povos da terra verão o Filho do Homem chegar sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade. A volta gloriosa de Cristo como juiz é uma das verdades mais freqüentemente ensinadas pela Sagrada Escritura. Não há ninguém que duvide desse juízo final, anunciado nas sagradas Escrituras, a não ser aqueles que, devido a uma cega e obstinada incredulidade, não crêem nas próprias Escrituras (S.Agostinho, A Cidade de Deus, 20,30).
Cristo juiz
O objeto do advento final de Cristo não é um cataclismo cósmico, ou a grande turbulência, que chama mais a nossa atenção, mas, sim, o Julgamento. Em que deve ele consistir?
Julgar significa: dizer o que é justo. Tal é a função dos juízes civis e eclesiásticos: exercer a justiça. Ora, a justiça de Deus é a expressão de Sua sabedoria: ela constitui a ordem das coisas conforme à idéia da sua sabedoria(S. Tomás, Suma Teológica, I, 21, a.2) A função de Cristo juiz será, pois, a de manifestar a sabedoria da obra divina.
O fim da história do mundo
A obra divina começou no primeiro dia da criação. A ordem da natureza foi fundada durante os seis dias e foi concluída pela criação do homem, à imagem e semelhança de Deus. Tendo o pecado pervertido essa obra, Deus produziu outra criação, uma nova humanidade, por Jesus Cristo e em Jesus Cristo. A obra de Deus prossegue na história. A história do mundo desenrola-se e cumpre-se pelos atos livres dos homens. Eis porque não existe um sentido da história; são os homens que fazem a história. Porém esses atos são incluídos nos desígnios da Providência e dentro do governo divino. Deus é o senhor da história, que Ele conduz para a glória final de Cristo e dos eleitos. Portanto há, sim, um sentido da história, mas não existe história profana. Sem Jesus Cristo a história é absurda. Todo o seu desenrolar tem em vista o advento glorioso do Salvador.
Entretanto, não decorre daí que a humanidade esteja em progresso espiritual contínuo. Muito pelo contrário, constatamos o domínio das forças do mal. Os livros sagrados anunciam-nos provações e perseguições; e Nosso Senhor fez a pergunta: Quando o Filho do Homem retornar, será que ainda encontrará a fé sobre a terra? (Luc., 18,8)
A vinda da justiça
Essa história do mundo e da Igreja é para nós bem enigmática. Sabemos, teoricamente, que nada acontece fora da vontade de Deus. Mas quantas injustiças e infelicidades, quantas mentiras e perseguições, provações e sofrimentos! A nossa própria vida, a vida de outras pessoas, e numerosos acontecimentos suscitam perplexidade, até mesmo revolta ou desespero. Não há somente santidade no mundo e o mal permanece triunfante. O grito dos perseguidos sobe até o céu: Eu vi sob o altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus, e do testemunho que tinham dado, e eles gritavam com voz forte: Até quando, Senhor santo e verídico, reterás o teu julgamento, e não vingarás o nosso sangue dos habitantes da terra? (Apoc. 6, 8-10).
O julgamento particular de cada homem é uma primeira resposta a essa espera de justiça. Pois cada homem, no instante da sua morte, comparece perante Deus e recebe a retribuição que lhe for devida. A sentença é imediatamente executada para aqueles que são condenados ao inferno. Para os demais, a entrada no céu pode ser adiada, se não estiverem ainda completamente purificados do pecado; mas são salvos.
Entretanto a seqüência desses julgamentos particulares deixa a justiça insatisfeita. São eles o segredo de Deus, permanecendo ignorados dos homens. E o homem continua vivendo na terra pela sua reputação, sua honra - ou sua desonra - , sua descendência, as obras que lhe sobrevivem; ou então, pelo contrário, ele é esquecido, morto não só fisicamente como também social e historicamente.
É o julgamento geral que completa a obra da divina justiça. Nele a vida de cada pessoa será manifestada e julgada em relação com a universalidade dos homens, não mais apenas no seu mérito individual: o homem deve ser julgado como fazendo parte da totalidade do gênero humano; assim como se diz que alguém é julgado segundo a justiça humana, quando é julgada a comunidade da qual faz parte(S. Tomás, Comentário sobre as Sentenças, IV Sent., d.17, Q.1, sol.1, ad 3. O juízo universal concerne mais diretamente à universalidade dos homens do que a cada um deles, ibid.).
Não é que Deus reveja a sua sentença de salvação ou de danação para cada homem! Essa sentença aparecerá publicamente e em toda a sua sabedoria. Saber-se-á então quem faz parte da humanidade nova, a Igreja, e quem lhe é estranho; pois nem todos os homens são membros da Igreja, e entre esses membros muitos são membros mortos. As hipocrisias serão desmascaradas, as santidades aparentes serão dissipadas, as reputações enganosas serão arruinadas; todo um mundo artificial de obras factícias desabará, e serão vistos o seu vazio e a sua vaidade. Como num relâmpago, ficarão evidentes à inteligência de todos as obras de cada um e a separação do bem e do mal (S. Tomás, op. cit., IV Sent., d.17, Q.1, sol.2.).
Atualmente a sucessão dos acontecimentos parece ir contra as exigências da justiça. O mal triunfa, o bem é vencido. Os atos virtuosos não são recompensados. A injustiça leva ao sucesso. Nesse julgamento serão revelados os mistérios ainda escondidos da justiça divina: com efeito, atualmente os atos de uns servem ao proveito dos outros, de modo diferente do que pareceriam exigir suas respectivas obras; mas então, terá lugar a separação universal dos bons e dos maus; os maus não mais progredirão graças aos bons, nem os bons graças aos maus; é por causa desse progresso que hoje os bons e os maus estão misturados, enquanto o estado da vida presente prossegue sob o governo da divina providência (S. Tomás, op. cit., IV Sent., d.17, Q.1, sol.1.) Hoje tudo está misturado; as felicidades e as aflições terrestres advêm a todos indistintamente, contradizendo, ao que parece, as exigências da justiça. As duas Cidades, a de Deus e a da terra, têm parte igual dos bens e dos males desta vida; mas sua fé, sua esperança e sua caridade são diferentes, até que o juízo final as separe e cada uma delas chegue ao seu fim que não terá fim. (S. Agostinho, A Cidade de Deus, 18,54)
Revelação da sabedoria divina
Então serão desvendadas as obscuridades da história. O escândalo da vitória do mal não mais existirá. As injustiças, os infortúnios, as mentiras, as perseguições, as provações e os sofrimentos, todos esses males que têm oprimido a pobre humanidade, aparecerão como ornamentos que constituem a glória dos santos e do Corpo Místico. Não só saberemos, mas veremos que Deus preferiu permitir o mal a fim dele tirar um bem maior, edificando a Cidade de glória pela Cruz. A felix culpa não será mais um mistério.
Todos verão que Deus tudo criou e tudo governou para a glória de Cristo e do seu Corpo Místico, o homem perfeito, a cabeça primeiramente, a seguir o corpo composto de todos os membros, que receberão a última perfeição em seu tempo. (S. Agostinho, op. cit., 22,18).
A espera e a contemplação do mistério do juízo final dão ao cristão uma bem-aventurada visão de paz (Hino da Dedicação) sobre os acontecimentos do mundo e os de sua própria vida. Ele adora a sabedoria dos desígnios da Providência na escuridão da fé, enquanto aguarda contemplá-la naquele dia derradeiro.
O céu e a terra passarão, mas quanto a ti, tu és chamado à imortalidade, à adoção filial, a te tornar o irmão, a esposa do Rei. No mundo visível, tudo o que é do esposo também é da esposa; do mesmo modo, tudo o que Ele possui, o Senhor entrega a ti. Não foi Ele mesmo que veio para o revelar a ti? Não és tu consciente desta dignidade?
Ai do corpo que pretendesse fechar-se em si mesmo: corromper-se-ia e morreria. E ai da alma que também quer fechar-se em si mesma, confiando apenas em suas obras, e que não participa do Espírito divino: ela morre, sem ter sido julgada digna de compartilhar da vida eterna da divindade.
Uma alma que quer viver junto de Deus, na paz e na luz eternas, deve aproximar-se de Cristo, o verdadeiro sumo sacerdote; ela precisa ser imolada e morta perante o mundo e sua vida precedente de trevas e de malícia, a fim de receber em troca a vida divina.
Deus vê e suporta sem vingá-las as faltas secretas ou manifestas, e aguarda silenciosamente a conversão do pecador. Aquele, pois, que sendo objeto da grande bondade e da longanimidade de Deus, persiste assim mesmo em desprezá-las até acumular pecado sobre pecado, negligência sobre negligência, ofensa sobre ofensa, aquele chega ao cúmulo dos seus pecados, caindo finalmente em faltas tais que delas não consegue mais levantar-se; ele é quebrado e, entregue definitivamente ao Maligno, ele perece.
A alma que imagina poder atingir a pureza perfeita somente por ela mesma, sem o Espírito Santo, não está pronta para as moradas celestes nem para o Reino de Deus.
Eis em que os verdadeiros cristãos distinguem-se de todo o gênero humano, e qual é a grande diferença que os separa: eles têm sempre o espírito e a inteligência aplicados a pensamentos celestes. E graças à comunhão e à participação do Espírito Santo, eles contemplam os bens eternos. Foi-lhes concedido nascer do alto, de Deus, e tornarem-se filhos de Deus em verdade e em poder; após muitas lutas, muitas penas e muito tempo, chegaram enfim à estabilidade, à calma, à ausência de perturbação e ao descanso; não mais estão sacudidos como num crivo, nem agitados pelo movimento de vãos pensamentos. São maiores e melhores do que o mundo, porque o seu intelecto e o pensamento de sua alma encontram-se na paz de Cristo e na caridade do Espírito Santo.
Caros amigos e benfeitores,
No dia 12 de julho Dom Anjo nos telefona anunciando que está concluída a compra de uma antiga abadia cisterciense no centro da França. A comunidade é reunida na capela para cantar o Te Deum (hino de ação de graças que se canta tradicionalmente nas grandes ocasiões).
Por que essa fundação na França? A resposta é simples. Desde 1988 a Europa estava privada de mosteiros beneditinos inteiramente tradicionais, isto é, tradicionais na liturgia e na doutrina de sempre da Igreja. Ora, Dom Lefebvre desejava que fundássemos, logo que possível, um mosteiro na França onde dizia ele os senhores encontrarão ajuda e vocações.
Os fatos comprovaram as sábias palavras de Dom Lefebvre. Em menos de um ano de residência na França nossos irmãos puderam comprar uma bela abadia do século XII, Notre-Dame de Bellaigue (que significa Bela Água), que lembra essa água da qual Nosso Senhor disse: Se alguém tem sede venha a Mim e beba (Jo. 7, 37). Eis aí a vida do monge. Beber, pela contemplação, nas fontes do Sagrado Coração de Nosso Senhor e por esse meio se inflamar no amor a Deus e ao próximo.
Quanto às vocações, Dom Lefebvre não tinha menos razão, pois um rapaz já recebeu o hábito no final do ano passado e mais três se preparam para recebê-lo dentro de poucas semanas.
A ajuda da Fraternidade Sacerdotal São Pio X e de todas as comunidades amigas foi decisiva e comovente. Tendo sido formada pelos beneditinos, a Europa guarda por nossa Ordem um carinho todo especial que fez o superior do distrito da França da FSSPX, o Revmo. Pe. Pierre-Marie Laurençon, escrever no editorial do último número da revista Fideliter:
É historicamente inegável que a França foi modelada, formada, impregnada pela espiritualidade beneditina da oração, do trabalho e da paz interior. (...) É vital manter e restaurar esta continuidade de nossa civilização.
E mais adiante continua ele com essas palavras de grande profundidade:
Nós pensamos que a vida religiosa, da qual a Regra de São Bento nos oferece o arquétipo, é um componente essencial da Igreja Católica. Se esta vida religiosa viesse a desaparecer da Tradição católica ou se simplesmente ela declinasse, isto tenderia a provar que nós não seríamos um ramo vivo da Santa Igreja. Ao contrário, ver renascer e se desenvolver a vida religiosa, e em primeiro lugar a vida beneditina, é um sinal inequívoco da graça e da bênção divinas.
Por essa razão todos damos graças a Deus por essa nova fundação e esperamos que aqui também, no Brasil, muitos ouçam o chamado de Deus e se ponham sob a direção de São Bento para responder ao apelo que Deus não cessa de fazer a tantas almas para conduzi-las à santidade através da vida monástica.
ir. Tomás de Aquino O.S.B.
prior
Quais são os sinais de uma verdadeira vocação monástica? São Bento no-los indica ao dizer que o mestre de noviços deve observar se o postulante que bate à porta do mosteiro procura realmente a Deus e se ele tem zelo pela obra de Deus ( o Opus Dei, nome dado por São Bento ao Ofício Divino que reúne os monges na igreja sete vezes por dia e uma vez à noite), pela obediência e pelos opróbrios (Regra, c. 58).
Escutemos um breve comentário que faz dessa passagem Dom Romain Banquet, fundador e primeiro abade do Mosteiro de São Bento de Em Calcat, na França.
Compreende o candidato que se entra na vida religiosa para se humilhar, para servir e não para ser servido? Se ele compreende, é um sinal de vocação. Se não compreende, deve-se admiti-lo? Sim, por misericórdia, mas com a condição de que ele queira verdadeiramente se converter sobre este ponto tão importante. Se se percebe que suas pretensões são calculadas e mostram alguma tendência a se realizarem na prática, que não seja recebido. Admitir na comunidade um orgulhoso que quer alimentar o seu amor próprio seria introduzir na comunidade algo de satânico. (A Doutrina Monástica de Dom Romain Banquet, cap. II, nº 5)
A piedade é um sinal de vocação? Sim, mas Dom Romain adverte: Pode-se temer tudo de uma alma dita piedosa, mas escrava de sua vontade e de seu juízo próprio. (Idem)
E a obediência? A boa e verdadeira obediência basta, apesar das disposições imperfeitas, para denotar a vocação. (Idem)
Como se pode notar, Dom Romain Banquet é formal e mesmo severo, mas ao mesmo tempo, compreensivo e misericordioso. A conversão não é obra de um dia. A razão dessa severidade é que a vida religiosa é um combate de vida ou morte contra o pecado. Nossa vida é algo de grave, nós devemos levá-la a sério, o que não exclui a alegria, muito pelo contrário. Ao monge fervoroso São Bento assegura no Prólogo da Santa Regra: À medida que se vai avançando na vida religiosa e na fé o coração se dilata e, com inefável doçura de amor, corre-se pelo caminho dos mandamentos de Deus.
Que Deus nos dê a nós, monges e monjas do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, a graça de cumprir à risca o programa de nosso bem-aventurado Pai São Bento e de conduzir muitas outras almas ao amor de Deus que, quando é perfeito, afasta todo temor e nos conduz direto ao Céu.
Como eram admiráveis a esse respeito nossos Pais, os antigos missionários beneditinos! Eles chegavam num país idólatra; procuravam um lugar solitário, um lugar inacessível e aí se punham em oração, lutavam contra o demônio e os animais selvagens, construíam cabanas de madeira, cantavam os salmos nas horas canônicas do dia e da noite..., Nos vero orationi instantes erimus (Nós nos aplicaremos constantemente à oração, palavras de São Pedro nos Atos dos Apóstolos. VI, 4).
Quando eles haviam rezado, freqüentemente após vários anos, os camponeses, os pastores vinham vê-los e perguntavam quem eles eram, o que eles faziam. Daí às primeiras lições de catecismo havia só um passo. Com o tempo havia catecúmenos (catecúmeno é aquele que se prepara para o batismo, recebendo a instrução sobre os principais dogmas da fé)... Orationi et ministerio verbi instantes erimus.
Depois surgia uma cristandade: a perseguição podia vir, ela era vencida; a fé triunfante estava plantada nas almas.
Todo esse bem decorria de um princípio interior: a oração, a união com Deus: nessa união, nessas comunicações incessantes, os santos recebiam de Deus as graças de luz, de conversão para as almas; e é assim que o seu ministério era abençoado por Deus.
D. Emmanuel-Marie André O.S.B.
Qual é o objetivo dos filhos de São Bento?
O de realizar o programa de nosso Bem-aventurado Pai, contido em sua Santa Regra que, no dizer de Bossuet, "é um misterioso resumo de todo o Evangelho".
Ora, esse mesmo resumo pode ser resumido. São Bernardo o fez de maneira luminosa, condensando o retorno da alma a Deus em três graus: a verdade, a caridade, a contemplação. Expliquemo-nos melhor. São Bernardo define a humildade como sendo a virtude pela qual o homem, em conseqüência do verdadeiro conhecimento (verissima cognitione) de si mesmo, despreza-se a si mesmo. Eis o primeiro grau: a humildade que procede da verdade.
O segundo grau é a caridade fraterna, pois o conhecimento de nossa própria miséria desperta em nós uma sincera compaixão para com a miséria dos outros.
O terceiro grau, por fim, é a caridade também, mas a caridade que nos eleva até Deus. Quando o homem está purificado pela penitência, fruto da humildade, e pela obras da caridade, que cobrem uma multidão de pecados, então a alma volve sua atenção para a contemplação das coisas invisíveis, para o Deus inacessível, fonte de todo o Bem, de toda a verdade, de todo o Ser.
O primeiro grau, diz São Bernardo, é severo, o segundo, piedoso e o terceiro, puro. Ou melhor, é a própria verdade que é severa, em seguida piedosa e finalmente pura. "In primo veritas reperitur severa, in secundo, pia; in tertio, pura”.
Eis aí toda a vida beneditina, toda a vida contemplativa, toda a vida cristã. Voltar-se para Deus pouco a pouco, como um grande pássaro que, partindo do solo da humildade, corre pelo caminho da caridade e alça vôo pela contemplação da Divindade de Nosso Senhor até à Trindade inefável.
Caríssimos amigos e benfeitores,
Gustavo Corção no seu livro “Dois Amores e Duas Cidades” escreveu essas luminosas palavras a respeito dos maçons que se levantaram com violência contra o dogma da Infalibilidade Pontifícia definido por Pio IX:
“O que mais irritava os “esclarecidos” não era apenas a loucura de alguns homens pretenderem que um homem, em determinadas circunstâncias possa ser portador de uma verdade infalível. Não, o que mais irritava o mundo liberal era a idéia mais simples e mais assustadora: a de existir uma Verdade infalível e imutável.” (tomo II p. 273-274 - Agir. 1967)
Ora, quando o presidente dos Estados Unidos convoca o mundo para uma cruzada contra o terrorismo é necessário lembrar que pior que o terrorismo de Bin Laden, é a recusa desta verdade infalível e imutável, a recusa do Verbo feito carne, d’Aquele que disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. (Jo. 14, 6)
Pior que o terrorismo árabe, é a mentira de Maomé e de seus seguidores, e pior que a mentira do falso profeta Maomé, é a mentira daqueles que condenaram à morte e morte de cruz o Autor da vida (Atos III, 15), e que hoje O perseguem na pessoa de sua Igreja, como outrora Saulo a caminho de Damasco (Atos IX, 4). Pior que o terrorismo que mata o corpo, é o terrorismo que mata a alma; é o protestantismo, o budismo, a maçonaria, sobretudo a maçonaria, e todas as falsas religiões e as falsas filosofias do mundo moderno, que geraram o racionalismo, o liberalismo, o modernismo e o progressismo.
Pior que o terrorismo, é o “espírito de Assis”, é a declaração da Dignitatis Humanae que justifica, em fim de contas, o terrorismo, pois ela justifica a difusão do erro e diz que numa sociedade bem constituída, toda religião deve receber proteção do Estado para poder pregar publicamente “o valor peculiar de sua doutrina” (Compêndio do Vaticano II - pág. 604 nº 1547 - Vozes. 1983). Quem aceita o erro, que não se queixe das conseqüências ou aproveite da lição para corrigir-se, pois a Sagrada Escritura nos ensina que “os deuses dos pagãos são demônios” (Salmo 95, 5). Logo, dar direitos às falsas religiões é dar direitos a algo diabólico, com todas as suas conseqüências.
Pior que o terrorismo, é ver os homens da Igreja abrirem as portas aos inimigos e contribuírem para a destruição do que resta da cristandade no mundo, tornando-se assim inimigos da própria Igreja.
Eis porque é perigoso fazer acordos práticos com Roma sem primeiro fazer acordos doutrinais. Se o modernismo domina atualmente em Roma, como fazer acordo com Roma? O modernismo é a negação da Verdade, negação de Nosso Senhor Jesus Cristo. É o triunfo das idéias liberais maçônicas, mesmo se alguns prelados romanos não se dão conta disso. Por esta razão Dom Fellay declarou: “apenas quando as mentes estão de acordo na Verdade é que conseguem estar unidas na busca de um mesmo objetivo comum.” (carta aos Amigos e Benfeitores - 5 de maio de 2001) e recusou-se a qualquer acordo prático sem acordo doutrinal, sem adesão Àquele que é a Verdade. Suprimir a verdade é suprimir Nosso Senhor Jesus Cristo.
Eis porque nós compartilhamos inteiramente a comum preocupação da Fraternidade São Pio X assim como da família da Tradição em todas as partes do mundo, ao ver nossos amigos de Campos tratarem com aqueles cujas intenções e doutrinas os Bispos da mesma Fraternidade São Pio X já puderam avaliar e repudiar, concluindo que o momento de uma reconciliação com Roma ainda não chegou, pois Roma ainda está ocupada pelos inimigos de Roma.
Dom Lefebvre dissera: “Preparem-se para um combate de longa duração” e Pio XII havia predito que a principal tentação dos católicos nos anos que estavam para vir seria o cansaço diante da dificuldade cotidiana em ser católico, em combater o bom combate até o fim.
Que Nossa Senhora nos obtenha a todos a graça de ficar firmes, para poder dizer um dia com São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a Fé” (II Tim. IV, 7). .
ir. Tomás de Aquino O.S.B.
prior
Assim como Nosso Senhor foi flagelado, cuspido e crucificado, assim a Santa Igreja, como seu divino Esposo, deve conhecer também as humilhações e dores da Paixão. Ela está hoje desfigurada e sem beleza, seu corpo coberto de chagas e seus filhos dispersos. Sua voz está cativa, a verdade silenciada, seu poder de fazer milagres diminuído e seus filhos incapazes de grandes penitências.
O que fazer? "A quem iremos, Senhor? Só vós tendes palavras de vida eterna", disse São Pedro, quando Jesus perguntou aos Apóstolos se eles também queriam deixá-lo, como haviam feito muitos discípulos após a pregação sobre a Santa Eucaristia. O mesmo diremos nós. O mesmo faremos nós. Mais do que nunca devemos ser filhos da Igreja. Devemos conhecer e amar essa Mãe, da qual tudo aprendemos. Conhecer a Igreja é conhecer a sua doutrina, isto é, o depósito da Fé que lhe foi divinamente confiado; é conhecer as suas prerrogativas, suas funções, sua natureza. A Igreja é o Corpo Místico de Cristo. Por isso ela, mesmo hoje e sempre, é sem mancha e sem ruga. Os pecados de seus filhos ela pode carregá-los e expiá-los como Nosso Senhor o fez, mas esses pecados não são dela. Hoje a sua face está coberta de injúrias por causa das calúnias com as quais o mundo e seus próprios filhos desfiguram-na, mas sua face continua infinitamente bela e santa, embora oculta, guardando em si mesma, na sua essência, toda a sua beleza e santidade divinas.
Mais do que nunca sejamos filhos diletos de nossa Mãe e, se o Santo Padre tropeça, se ele faz como São Pedro renegando Nosso Senhor, rezemos para que o seu olhar encontre o do Mestre e que, como São Pedro, ele se arrependa e chore e, em seguida, confirme seus irmãos, os Bispos, e todo o rebanho a ele confiado. Que ele pregue corajosamente diante do mundo inteiro que fora da Igreja não há salvação, que nenhum outro nome foi dado ao mundo pelo qual nós possamos ser salvos senão o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo(1), diante do qual todo joelho se dobra no Céu, na terra e nos infernos(2). Que o Santo Padre condene, como os seus antecessores, a liberdade religiosa, que destrói a verdadeira doutrina da Realeza Social de Nosso Senhor, ensinada pela Igreja desde sempre e explicitada por Pio XI na encíclica Quas Primas; que ele condene a funesta reforma litúrgica de 1969, fruto do não menos funesto Movimento Litúrgico, que se afastando dos ensinamentos de São Pio X seguiu falsos mestres como Dom Lambert Beauduin OSB e tantos outros; que ele condene sobretudo esse falso ecumenismo que paralisa toda a vida missionária da Igreja; fruto de gravíssimos erros e heresias que são ensinados livremente hoje em dia nos meios católicos e cuja fonte envenenada são os ensinamentos do Concílio Vaticano II e a nova e estranha teologia do próprio Santo Padre.
"Vigiai e orai" nos disse Nosso Senhor. Vigiemos pelo estudo e pela prudência, pois o demônio ronda como um leão procurando a quem devorar. Abracemos esta devoção que Deus nos deu em Fátima, que é a devoção ao Imaculado Coração de Maria e ao Rosário, ao qual foi dado uma nova eficácia em nossos tempos.
Rezemos também por Campos, para que eles não se calem, como fizeram a respeito da última reunião de Assis, do dia 24 de janeiro deste ano. Que em Campos haja quem combata o bom combate com toda a santa liberdade de um São Paulo, que repreendeu São Pedro quando este agiu mal. Que os filhos de Dom Antônio de Castro Mayer não percam as qualidades de seu pai, mas que haja entre eles quem levante publicamente o estandarte da verdade, mesmo que o preço a ser pago por essa santa ousadia seja a cólera dos prelados modernistas, e uma participação mais íntima da Paixão de Jesus e das Dores de Maria Santíssima.
ir. Tomás de Aquino O.S.B.
prior
29 de março de 2002
Sexta-Feira Santa
(1) Atos IV, 12
(2) Filip. II, 10
Os votos de religião são muito agradáveis a Deus, a Quem damos desta maneira não apenas alguns atos de virtude mas o fundo mesmo que os produz, assim como um homem que oferecesse a um amigo não apenas algumas frutas de seu pomar mas o próprio pomar. São também muito vantajosos à alma, porque comunicam a todas as obras o merecimento dos atos de religião, pois tudo o que faz o religioso, mesmo tomar a sua refeição, trabalhar, estudar e participar da recreação, torna-se ato dessa virtude, que é a maior de todas as virtudes morais, inferior apenas às virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. Além disso, os votos protegem o religioso contra as hesitações e desfalecimentos a respeito do estado de vida que ele abraçou, fazendo da procura da perfeição, por meio dos conselhos evangélicos, uma feliz e constante obrigação.
Os beneditinos emitem, além dos votos de obediência e de conversão dos costumes (pobreza e castidade), o voto de estabilidade, que o fixa na comunidade na qual ele fez a sua profissão perpétua. Desta forma a vida beneditina tem a estabilidade própria de uma verdadeira família, no seio da qual o monge passará toda a sua existência e será cercado de todas as atenções de seus irmãos na hora da morte.
Felizes aqueles que são fiéis a seus votos até o fim e, após a sua morte, são confiados à terra com a sua querida cogula (hábito de coro dos monges), recebida no dia de seus votos perpétuos.
Embora Santo Antão vivesse no deserto longe
dos homens para estar mais perto de Deus, ele não deixou de dar testemunho
quando a Fé do povo católico esteve em perigo.Corajosamente
ele foi a Alexandria em busca do martírio e pregou abertamente a
doutrina dos Apóstolos. Não conseguiu ser mártir mas
deixou a todos os contemplativos um exemplo a ser seguido.
No contexto atual pensamos ser também de nosso dever dar testemunho
público da Fé para o bem das almas.
A sagração de Dom Fernando Rifan e os acordos (ou entendimentos)
de Campos com a Santa Sé nos parecem marcar o início de uma
triste etapa na história religiosa de nossa Pátria. Como Dom
Fernando Rifan declarou no jornal “Folha da Manhã” de
30 de junho, está em “perfeita convivência católica”
com Dom Roberto Guimarães e pelo visto, com toda a Roma oficial.
Ora, essa Roma oficial difunde os erros que Dom Lefebvre e Dom Antônio
tanto combateram e que tanto ofendem a Nosso Senhor e causam a perdição
eterna de grande número de almas.
Por essa razão nossa separação com Campos é
completa. São dois caminhos, duas orientações, duas
doutrinas, duas igrejas segundo a forte expressão de Dom Antônio
de Castro Mayer. Nós escolhemos ficar com a Igreja de sempre, a Igreja
dos Papas que condenaram o Liberalismo, o Modernismo e a Nova Teologia,
a Igreja de todos os Papas até o Concílio Vaticano II, que
recusamos na mesma medida em que o recusaram Dom Antônio e Dom Lefebvre,
que escreveu um livro intitulado “Eu acuso o Concílio”,
onde ele dá as razões de sua oposição às
novas doutrinas conciliares.
Nossa escolha está feita, aliás, já estava feita. Ela
consiste simplesmente em continuar o combate e em rezar para que esses dias
de crise sejam abreviados e novamente a luz da verdade ilumine a vida das
nações e dos indivíduos, luz que não pode ser
outra senão Nosso Senhor Jesus Cristo Ele mesmo, e sua Igreja fora
da qual não há salvação.
Custamos a crer que todos os padres de Campos estejam em “perfeita
convivência católica (?)” com os progressistas e rezamos
para que percebam que Roma não mudou e que são eles que correm
o risco de mudar. E mudar em matéria de Fé é tomar
o caminho que leva a diminuição e perda da mesma Fé.
Que Deus os preserve dessa desgraça.
Ao iniciar-se a Quaresma, devemos conformar nossos
pensamentos e sentimentos aos de nossa Santa Madre Igreja.
“Não devemos nos espantar, escreve Dom Guéranger, que
um tempo tão sagrado como o da Quaresma seja um tempo repleto de mistérios.”
Esses mistérios começam pelos números de dias que compõem
a Quaresma.
Já o tempo da Septuagésima nos lembra os setenta anos de cativeiro
do povo judeu em Babilônia, enquanto que o número quarenta, nos
diz São Jerônimo, é o número por excelência
das penas e aflições. Durante quarenta dias e quarenta noites
as águas do céu desabaram sobre a terra no dilúvio; quarenta
anos foi o tempo em que o povo judeu permaneceu no deserto antes de poder
entrar na terra prometida. Moisés e Elias jejuaram quarenta dias e
quarenta noites antes de receberem de Deus as revelações que
fizeram do primeiro o legislador por excelência do Antigo Testamento
e do segundo, o maior de todos os profetas.
Nosso Senhor mesmo, antes de iniciar sua vida pública, entregou-se
igualmente a um jejum de quarenta dias e quarenta noites.
Que nós também, lembrando-nos de tantos exemplos, possamos compreender
a necessidade dessa salutar penitência e assim nos preparar para as
ações da graça que Deus deseja nos dar em abundância
nos dias de Páscoa.
O estado da hierarquia católica assim como dos fiéis, o estado
da sociedade em todos os seus níveis e países nos revelam essa
“diabólica desorientação” da qual falava
a vidente de Fátima e que é causa de profunda apreensão
para todo aquele que reflete sobre as conseqüências de tão
profundo mal. Assim como no tempo do profeta Jonas Nínive foi preservada
da destruição por causa da penitência de seus habitantes,
saibamos fazer penitência segundo nossas forças lembrando-nos
que nessa matéria não há nada melhor do que escutar os
conselhos que nossa mãe, a Santa Madre Igreja, nos dá na liturgia
destes dias de Quaresma, nos quais nos é recomendado o jejum e a abstinência
acompanhados da oração mais freqüente e suplicante, pois
o jejum e a oração são as duas principais armas com as
quais os filhos de Deus podem vencer o espírito das trevas e obter
da divina misericórdia as graças de perdão e auxílio
de que tanto necessitamos e sem as quais nós pereceremos todos.
Nosso Bem-aventurado Pai São Bento, para facilitar a seus filhos a
prática da penitência nesses santos dias, detalhou na Santa Regra
o que cada religioso pode esforçar-se em oferecer a Deus e assim preparar-se
para a Santa Páscoa com a alegria de um desejo todo espiritual. Reproduzimos
esse texto neste boletim para auxiliar todos aqueles que, com espírito
de Fé e de penitência, desejam conformar seus sentimentos aos
da Santa Igreja nesses santos dias da Quaresma.
ir. Tomás de Aquino