Sobre a «teologia» pessoal de Karol Wojtyla

Carta Recebida

Senhor diretor,

O artigo publicado no SimSimNãoNão de maio de 1994, sobre a orientação herética... do papa, expõe um assunto muito grave.

O ponto chave do artigo é - na primeira página - o pensamento, o ponto de partida da teologia de Wojtyla.

Mas porque não citar um pensamento completo diretamente de seu livro Sinal de Contradição?

Este ponto de partida é muito importante. A argumentação apresentada por Hirpinus me parece, por outro lado, rápida demais.

Será possível retomar este ponto mais a fundo? Agradecimentos

Carta assinada


Retomaremos com prazer a questão exposta, tendo em vista justamente sua extrema gravidade. Eis o pensamento do cardeal Wojtyla, tal como ele expôs no seu comentário de Gaudium et Spes nº 10:

«O nascimento da Igreja, que se deu na Cruz, no momento messiânico da morte redentora de Cristo, foi na sua essência o nascimento do homem, de cada homem e de todos os homens, do homem que - quer ele saiba quer não, quer aceite ou não a fé - já se acha na nova dimensão de sua existência» (Sinal de Contradição, cap.1 1).

Como o leitor pode constatar, no meu artigo citado, limitei-me a citar o ponto chave, ou seja, a afirmação de que o «nascimento da Igreja» se identifica ao nascimento sobrenatural de «cada homem» e como conseqüência «quer ele saiba ou não, quer aceite ou não a fé» já se acha na «nova dimensão de sua existência», ou seja na dimensão sobrenatural. De fato uma tal afirmação, anulando toda distinção entre redenção universal e salvação pessoal (ou justificação), é absolutamente incompatível com a doutrina católica que, pelo contrário, sempre distinguiu o plano objetivo da redenção que é universal e incondicionado (Cristo morreu por todos os homens), do plano subjetivo que é individual e condicional (cada homem somente se salva se aceita Jesus Cristo pela fé verdadeira). A confusão dos dois planos desemboca inevitável e precisamente na heresia da «nova teologia»: a salvação incondicional de todos os homens (Cristo morreu por todos os homens e portanto cada homem se salva independentemente de sua fé e de seu batismo, «quer ele saiba quer não, quer aceite ou não a fé», o que corresponde ao «o inferno existe, mas está vazio» de von Baltasar). Todos os erros do «teólogo» Wojtyla que citamos no SimSimNãoNão de maio de 1994, encontram aqui seu ponto de partida:

1 - Uma nova eclesiologia: a Igreja se identifica, simplesmente, com toda a humanidade.
2 - Uma nova noção da Revelação: todos os homens (fiéis e infiéis), e todas as religiões (verdadeiras e falsas) possuiriam a revelação, mesmo com diversos graus de conhecimento.
3 - Uma nova noção de fé: a fé é somente uma tomada de consciência do «sobrenatural» preexistente originalmente em todos os homens.

Todos estes erros já foram os do modernismo e já foram condenados por São Pio X, na Pascendi.

O papa Wojtyla nunca renegou a teologia do cardeal Wojtyla. Ao contrário. Se suas encíclicas, seus discursos, suas iniciativas ecumênicas, especialmente Assis e todas as reuniões com o espírito de Assis que vão se multiplicando, se tudo isto não basta para demonstrá-lo, só falta ler o Osservatore Romano de 6 e 7 de setembro de 1993: «No final da oração (feita em Vilnius, na Lituânia, no túmulo dos mártires da independência), o Santo Padre pronunciou, em italiano, as seguintes palavras: «Rezamos e abençoamos todos os túmulos católicos e não católicos; cristãos, lituanos, poloneses, russos, todos. Porque diante de Deus, neste grande mistério da morte, somos todos uma única coisa, somos seu povo, somos a comunhão dos santos». Não é preciso nenhum comentário: para o papa Wojtyla não há mais distinção entre católicos e não católicos, porque toda a humanidade é a «comunhão dos santos» e portanto a Igreja.

O Papa atual, portanto, fala e age mais freqüentemente segundo sua nebulosa «teologia» pessoal, infelizmente incompatível com a doutrina católica. É um fato nunca visto na Igreja, pelo menos em proporções tão vastas. Em proporções muito mais reduzidas, houve, de fato, o caso de João XXII (1316-1334) que pregou e sustentou sua tese teológica pessoal sobre a visão beatífica dos justos, deixando-a para depois do julgamento universal, em oposição à fé tradicional, e que então provocou escândalo e reações nos meios teológicos da época. Este fato não constitui um impedimento à proclamação da infalibilidade pontifical do Vaticano I, porque a infalibilidade não concerne à teologia pessoal do Papa, nem a tudo o que o Papa diz ou fala, mas somente às suas declarações ex-cathedra.

Ora, João XXII não fez tais declarações ex-cathedra, não mais do que fez até agora João Paulo II. O que não impede que o pontificado de Karol Wojtyla seja e permaneça sendo um tempo de provações muito duras para a Igreja.

Hirpinus


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