A “DOMINUS IESUS”
Uma declaração
“perfeitamente alinhada com o Vaticano II”

A 6 de agosto de 2000, a Congregação para a Doutrina da Fé tornou pública a declaração Dominus lesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Sua Igreja. A Declaração provocou contestações entre os católicos "ecumênicos" e entusiasmou alguns católicos que querem ser e permanecer simplesmente tais. Parece-nos que tanto os contestadores da Declaração quanto os que se alegraram com ela, ou não leram integralmente o documento ou não o leram com a devida atenção. Ele, de fato, está "perfeitamente alinhado com o Vaticano II” (Mons. D'0rnellas, Bispo auxiliar de Paris), e com os objetivos dos modernistas “moderados", os quais não querem o retomo à Tradição, mas nem "uma corrida para a frente" (v. Ratzinger em Entrevista sobre a Fé) e, por isso, contrariamente a tudo o que fizeram supor os superficiais e precipitados comentários da imprensa, com este documento "nada se mudou" (Mons. Ennio Antonelli, secretário da Conferência Episcopal Italiana CEI). Algumas "novidades" da Declaração”, além disso, a tornam ecumenicamente ainda mais próxima do Vaticano II.


Omissões significativas


A Introdução da Dominus Iesus se serve, para expor “os conteúdos da profissão de fé cristã”, do Símbolo Constantinopolitano (D. 150) no qual falta o “Filioque”. acrescentado como complemento legítimo, “por motivo daqueles hereges que dizem ser o Espírito somente do Pai” (Sínodo do Friuli, 976; sobre o “Filioque”se veja Sï Si No No 15 de dezembro de 1997, p. 6).

Por que a Dominus Iesus sempre retorna ao Símbolo sem o “Filioque”? Evidentemente por motivos ecumênicos: para obter as boas graças dos “ortodoxos” que tomaram pretexto daquilo para o cisma. Mas isto equivale a ofuscar a Fé, a causar um grande prejuízo à Igreja Católica e a confirmar os autodenominados “ortodoxos” na convicção de que o Filioque foi uma “invenção diabólica”, um “dogma perverso” (Fócio) da Igreja romana.

Outra omissão é a ausência de toda a referência ao dogma “Extra Ecclesiam nulla salus” numa Declaração que todavia é dedicada principalmente ao “diálogo interreligioso”, ou seja, ao diálogo com as religiões nem mesmo nominalmente “cristãs”, o qual “hoje — se diz — não substitui mas acompanha” a ação missionária da Igreja (§ 2).

Estas omissões são significativas. Na realidade, apesar da aparente firmeza de algumas asserções, destinadas a frear as “corridas para a frente”, a Dominus Jesus, viciada pela intenção “ecumênica”, alterna, como veremos, verdades de fé com contradições inconciliáveis com o dogma católico. Também isto se acha perfeitamente em linha com o “espírito” e os textos do Vaticano II e com os documentos sucessivos.

A tese chave

O intento declarado da Dominus Jesus é “reexpor a doutrina da fé católica” a respeito da “unicidade e universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo e da Igreja” (§ 3) contra “determinadas posições errôneas ou ambíguas” (ibid.).

A tese-chave de toda a Declaração é exposta no § 5, quando se repete que «se deve crer firmemente na afirmação de que, no mistério de Jesus Cristo e da Igreja [...] se dá a revelação da plenitude da verdade divina» e «por isto a encíclica “Redemptoris Missio” [muito citada em todo o Document] propõe de novo à Igreja o dever de proclamar o Evangelho como plenitude da verdade; "nesta Palavra definitiva da sua revelação, Deus se deu a conhecer do modo mais pleno” ». A tese-chave, portanto, é que em Cristo há uma plenitude de revelação não relativa ao Antigo Testamento (o que é verdade), mas também às falsas religiões (o que está errado) nas quais, por isso, a revelação divina se deu apenas menos plenamente.

Noutras palavras, todo o universo das religiões (pagãs e também seitas) seria, de algum modo, reconduzível “ao mistério de Cristo”, salvo que na Igreja Católica a revelação se encontra em sua plenitude, enquanto que nas outras "crenças" religiosas não é plena, mas incompleta em graus diversos; nas religiões pagãs, além disso, "assume um papel de preparação evangélica e não pode deixar de ter uma referência a Cristo [...] para que Ele, o Homem perfeito, opere a salvação de todos e a restauração universal” (§12). Assim Cristo resume também todas as religiões, verdadeiras e falsas! E com esta “referência” obrigatória a Cristo (e à Sua Igreja) que suplanta de fato o dogma “Extra Ecclesiam nulla salus”, a Declaração crê haver posto a salvo a “unicidade e universalidade salvífica do mistério de Cristo e da Igreja" !

O equívoco de fundo


Por tudo quanto concerne às religiões pagãs, a prospectiva da partida está infeccionada por uma avaliação errada das suas crenças. "A crença nas outras religiões — lemos — é aquele conjunto de experiência e pensamento, que constituem os tesouros humanos de sabedoria e religiosidade, que o homem, na sua busca da verdade, ideou e pôs em prática na sua referência ao Divino e ao Absoluto" (§ 7). Pareceria que o homem, durante os séculos, não fizera outra coisa senão buscar a verdade, destinado como é ao absoluto e ao divino por disposição natural, ao passo que a história das religiões nos atesta, pelo contrário, a apostasia do homem da revelação primitiva com gradual degeneração do primitivo monoteísmo em todos os povos. A ação do demônio (de quem não se fala mais) e as conseqüências do pecado original são duas realidades silenciadas, negligenciadas no documento, como no naturalismo mais decidido.

«Os tesouros humanos de sabedoria estão alinhados com a catequese da quarta-feira, na qual se afirma que “da abertura primordial do homem nos confrontos com Deus” nascem as diversas religiões. Não raramente, nas suas origens, encontramos fundadores que realizaram, com a ajuda do Espírito Santo, uma experiência religiosa mais profunda.» Segundo esta prospectiva naturalista e imanentista (já por nós refutada em outras ocasiões e que não é agora o objetivo direto do nosso artigo), as falsas religiões, fruto não da “abertura” mas do fechamento primordial do homem nos confrontos com Deus e da conseqüente perversão humana, devem ser estimadas pela Igreja “com sincero respeito”.

Se as Autoridades mais altas da Igreja considerassem estas crenças à luz da Sagrada Escritura e da Tradição, lhes negariam, como a Igreja sempre lhes negou, qualquer respeito e não veriam nelas “tesouros humanos de sabedoria e religiosidade”. Nelas, as poucas verdades se submergem e desfiguram por aquilo que são na realidade: fruto da luz natural da razão, ou resíduos da Revelação primitiva feita por Deus a Adão e aos Patriarcas ou fraudes perpetradas pelos séculos na própria Revelação definitiva de Jesus Cristo. Em vista disso, a Igreja nunca reconheceu como própria desta ou daquela religião uma só verdade sequer.

As atuais Autoridades eclesiásticas também não podem ignorar que as falsas “crenças” religiosas têm de próprio somente as mentiras e o absurdo nos quais as almas se enredam, mas, por motivos ecumênicos, as contrabandeiam com "tesouros humanos de sabedoria e religiosidade" e francamente, como veremos, "uma mediação participante” da única mediação de Cristo, e, por isto, para ser tratada com “sincero respeito”.


Inspirados ou quase tais os textos sagrados das religiões pagãs


No § 7, a Declaração redescobre a distinção, obliterada há decênios, entre “fé teologal” que “comporta uma dupla adesão: a Deus que revela e à verdade revelada por ele” e “crença” (humana e errônea) nas outras religiões (crença apresentada de modo absolutamente positivo, como vimos acima). Mas já no seguinte § 8 se empregam esforços para preencher este “saltus” entre o humano e o divino revelado, entre o natural (decaído) e o sobrenatural.

De fato, penetrando diretamente no “valor inspirado dos textos sacros de outras religiões” a Declaração deixa escapar a ocasião para insistir claramente que são inspirados unicamente os livros sagrados do Cristianismo. Limita-se a dizer que “a tradição da Igreja... reserva [sic]” tal qualificação ao Velho (melhor ao “Antigo”) e ao Novo Testamento, acrescentando que «todavia [...] Deus não deixa de tornar-se presente de tantos modos “não só a cada um dos indivíduos, mas também aos povos mediante as suas riquezas espirituais”, das quais as religiões são expressões principais e específicas, embora contenham “lacunas, insuficiências e erros” [“Redemptoris missio”]. Portanto, os livros sagrados de outras religiões de que, realmente, alimentam e guiam a existência dos seus seguidores, recebem do mistério de Cristo os elementos de bondade e de graça nele presentes» (§ 8).

Por detrás das perífrases diplomáticas é evidente a tentativa de reconhecer aos “livros sagrados” das falsas religiões uma certa inspiração, do mesmo tipo da Sagrada Escritura ainda que de “menor intensidade” ou em grau inferior, dado que Deus “mediante” estas religiões se tornaria “presente” (não se sabe em que medida) e os seus textos “sagrados” “recebem do mistério de Cristo" os “elementos de bondade e de graça [sic]” que “alimentam e guiam os seus seguidores” (um pouco antes foi dito que através de tais “elementos” “multidão de pessoas, no decurso dos séculos puderam e ainda hoje podem alimentar e conservar [sic!] o seu relacionamento religioso com Deus”). Em suma: as crenças pagãs são religiões quase cristãs (como veremos melhor) e os seus textos “sagrados”, contrariamente a tudo quanto se disse e deveria sempre dizer-se, são textos quase inspirados.

Esta concepção otimista e irreal das religiões pagãs está em contradição com tudo o que a Igreja, fundamentada na Sagrada Escritura e na Tradição, sempre ensinou e o Catecismo Maior de São Pio X, na sua Breve história da religião, expõe e resume simplesmente da seguinte maneira: já que o fim do homem é sobrenatural, «compreende-se... que a religião, desde o princípio deveria ser “revelada”, ou seja, manifestada por Deus ao homem. De fato, Deus revelou a religião a Adão e aos primeiros Patriarcas, que se sucediam uns aos outros [...], até Deus formar para si um povo que a conservasse até a vinda do Salvador Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, o qual... a cumpriu, aperfeiçoou e confiou à guarda da Igreja por todos os séculos.

Tudo isto está provado pela história das religiões, a qual, pode-se dizer, se confunde com a história da humanidade. Por conseguinte, é claro que todas as que se dizem “religiões” fora da única verdadeira revelada por Deus, da qual falamos, são invenções dos homens e desvios da Verdade, de que algumas conservam uma parte, misturada porém com muitas mentiras e absurdos».


Incoerências


Se no § 8 a Declaração nos apresenta um Cristo, que amplia os “elementos de bondade e de graça'' também nos livros “sacros” dos pagãos (maometanos, hindus e outros), não se compreende com qual coerência no § 9 se condenam aquelas reflexões teológicas (somente “mais avançadas”, mas também mais lógicas no erro), nas quais Cristo é apresentado como figura histórica “reveladora do divino de maneira não exclusiva, mas complementar de outras presenças reveladoras e salvíficas”.

Parece-nos, de fato, que a perspectiva do § 8 tenha como conseqüência necessária precisamente o avizinhar-se a Cristo de "outras presenças reveladoras e salvíficas”, sejam também inferiores a Ele e reconduzíveis a Ele, mas não excluídas dEle (como se diz claramente no § 14 que examinaremos em breve). Esta subordinação pode salvar o primado de Cristo (Cristo não tem comparticipantes da sua primazia) e a plenitude da sua obra (Cristo não tem necessidade de “complementos”), mas não a sua “exclusividade” e, por conseguinte, a sua “unicidade”, se as palavras devem significar aquilo que soam.

Também se mostra contraditória a conclusão do § 10, na qual se afirma «incompatível com a doutrina da Igreja a teoria que atribui uma atividade salvífica ao Logos como tal na sua divindade, que se exercitaria “além” e “para o outro lado” da humanidade de Cristo, e também após a encarnação». De fato, a atividade salvífica do Logos «“além” e “para o outro lado” da humanidade, mesmo após a encarnação» é afirmada pela mesma Declaração, ao dizer-nos que “Deus não deixa de estar presente” não só aos indivíduos em particular, mas também aos povos “mediante” as suas falsas religiões (muito embora seja com a costumeira e obrigatória referência ao “mistério de Cristo”). Assim a Declaração da mais alta Congregação romana é intrinsecamente contraditória exatamente no ponto em que desejava mostrar a sua maior firmeza.


Uma novidade inaudita

Na realidade, a defesa da “unicidade e universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo e da Igreja” é, de costume, gravemente infectada pelo desejo de promover, mesmo a custo da verdade, a “causa unionis”, e não apenas com as confissões que se dizem cristãs, mas com todas as crenças religiosas.

Esta intenção ecumênica é claramente enunciada no § 13: “A teologia hoje [...] está convidada a pesquisar [como se não fosse uma questão já posta e resolvida] se e como também figuras e elementos positivos de outras religiões reentram no plano divino de salvação [...] O Concílio Vaticano II de fato, afirmou que a única mediação do Redentor não exclui, mas suscita nas criaturas uma cooperação variada, participação da fonte. É bom aprofundar o conteúdo desta mediação participada”.

Entre Cristo e as crenças pagãs, o Vaticano II e os documentos sucessivos estabeleceram, como se vê, um caráter de continuidade que anula o salto apontado pelo Magistério precedente. Em vez de adversárias, contrapostas, inimigas, as falsas confissões religiosas são postas, como em Assis, da mesma parte de Cristo, em continuidade com Ele. Em conseqüência, o documento não quer repetir com firmeza unívoca que o caminho da salvação é um só, o estabelecido por Cristo na Sua Igreja, mas deixa entender, com disponibilidade equívoca, que se pode “admitir também o regresso de figuras e elementos positivos de outras religiões no plano divino de salvação” e que, ficando na linha do Vaticano II, podem-se reconhecer todas as falsas religiões como uma “variada cooperação”, até mesmo uma “mediação participada” com a única mediação de Cristo. A única reserva consiste no fato de estas “mediações participadas [...] não poderem ser entendidas como paralelas e complementares”. De fato, o conceito de complemento paralelo (paritético) é bem diferente do da mediação participada (subordinada).

Este conceito de mediação participada e subordinada é intrínseco à religião católica de sempre. A “novidade” da Declaração, inaudita na religião católica, é que a mediação participada não se reserva mais à Santíssima Virgem, aos Santos, aos membros do Corpo místico, mas é alargada a todas as falsas religiões (seitas e religiões pagãs). Em harmonia com a “nova teologia”, que não circunscreve mais o Corpo místico de Cristo à Igreja visível, nem mais as exceções individuais daquelas almas unidas "in voto", por desejo implícito e explícito, à Igreja, mas amplia, estende o Corpo místico de Cristo a toda a humanidade com todas as suas crenças religiosas.

O conceito-chave do ecumenismo se reduz a isto: “Todas as religiões estão ordenadas à salvação, que é uma só, a de Cristo; a sua ordem se estabelece em vista do grau de participação de qualquer uma delas na plenitude de verdade e salvação, encontradas em Cristo e na sua Igreja”. É esta a armação principal sobre que se rege também o edifício da declaração Dominus lesus, e nós não vemos em que coisa difere da tese que foi já a do modernismo: que Deus se revela “na vida de todas as religiões, singular e coletivamente, ainda que sobretudo na vida do Cristianismo” (G. Tyrrel "Per la sincerità in Rinnovamento” julho-agosto 1907).


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