Cada vez é mais evidente que a crise atual da Igreja, a crise modernista, foi permitida pelo Céu como um castigo, da mesma forma que o comunismo é, por sua vez, fruto perfeito e flagelo do laicismo liberal-maçônico (incluindo também o semi-laicismo católico-liberal). Castigo de um mundo afastado de Deus há vários séculos, porém também castigo de uma cristandade decadente, surda, espiritualmente falando, e tíbia. Portanto, seria lógico e prudente que o clero e os seculares não-progressistas, se compreendem a situação, se organizassem e com zelo e lucidez procurassem afastar a causa do castigo, em vez de perder tempo com lamentações pela situação presente. É isso que fazem ?
Há dois fenômenos que causam estupor em muitas pessoas de boa vontade, perplexas ante a situação atual do mundo católico (muitas delas vendo um só de seus aspectos e não a situação geral).
O primeiro fenômeno é uma mentalidade “de tempos normais”: essas pessoas raciocinam, falam, comportam-se como se vivêssemos sem que nada de especial venha acontecendo; como se, por exemplo, uma pessoa diante das ruínas ocasionadas por um terremoto dissesse: não posso ir deitar porque não escovei os dentes; aprendi isso desde pequeno.
O outro fenômeno é constituído por essas absurdas ilusões sobre a realidade eclesiástica de hoje; ilusões que quando são de boa fé revelam uma terrível incompreensão da dinâmica modernista. Ante qualquer coisa boa dita ou feita pelos Pastores atuais, ou que talvez os meios de comunicação atribui a eles, estas pessoas vêm em seguida dizer-nos: não está tudo tão mal como dizes... ou ainda também: as águas estão voltando a leito do rio. E de forma automática tais pessoas moldam-se às cômodas “normas oficiais” adotadas, por exemplo, por uma série de “meias medidas” politicamente corretas.
Porém, não é próprio da ilusão católico-liberal ou ecumênico-conciliar juntar o que não se pode unir? O católico-liberal, ou seja, o modernista de outrora ou de hoje, não quer, por principio, renunciar ao que é católico: antes, quer fazer o catolicismo compatível com o Iluminismo ou Protestantismo. Em sua célebre encíclica contra o modernismo, escrevia assim São Pio X: “Lendo seus livros, encontram-se coisas que poderiam ser ditas perfeitamente por um católico, porém se se vira a página, lêem-se outras que poderiam ser ditas perfeitamente por um racionalista”.
Certo prelado, considerado conservador (corrompido, porém, em seu fundo pelo liberalismo) me disse um dia uma frase claramente significativa desta dualidade: “os modernistas mais avançados [somente estes?] devem abrir-se a certos aspectos da tradição [só a alguns aspectos?], e assim tanto os “de direita” como os “de esquerda” chegariam a encontrar-se dentro de um nível de moderação”. O que quer dizer que o catolicismo tradicional não deveria combater o modernismo (e suas conseqüências) mas somente moderá-lo. Haveria que se ancorar numa posição moderada da Revolução. Chegados a este ponto, não podemos deixar de pensar na Pascendi que fala das transformações insidiosas levadas a cabo pelos modernistas: tais transformações deveriam realizar-se mediante um “entendimento por ambas as partes”, entre progressistas e conservadores, sendo estes últimos umas simples marionetes. Estes “conservadores” não o compreendem ou não querem compreendê-lo?
À esta anêmica “posição moderada”, à qual, segundo nosso prelado “conservador”, todos deveríamos concorrer, se aplicam estas palavras: “E ao anjo da igreja de Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e veraz, o princípio da criação de Deus. Conheço tuas obras, que não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és tíbio, e não és nem frio nem quente, estou para vomitar-te de minha boca” (Ap. 3,14-16).
Um sacerdote que conheceu bem o Cardeal Siri (que também o ajudou junto a Paulo VI e também em seu livro Getsemaní, contra a nova teologia) falou-me do sofrimento do Cardeal após as demissões forçadas que presenciou, quando viu cessar, em sua cidade de Gênova, o que cria poder conservar mediante uma certa linha de conduta. Li numa biografia deste grande Cardeal (Benny Lai, O Papa não-eleito) que nos últimos momentos de sua vida, “o último grande príncipe da Igreja”, pedia perdão a Deus, temendo ter-se evadido de um dever que a Providência lhe havia assinalado.
Um remorso talvez pouco freqüente, inclusive entre muitos homens provavelmente próximos ao “redde rationem” e que parecem ter medo de tudo, exceto da terrível responsabilidade de ter deixado que a Igreja se “auto destruisse” (na medida em que sua natureza divina e humana o permite) (Pablo VI!), e de não haver “dado de comer e beber” espiritualmente à dolorosa multidão que disso tinha necessidade (ver: Visões da beata Jacinta).
Observador