“Várias vezes, Nosso Senhor já
havia me dado conhecer o quanto era útil, para o progresso de uma alma
desejosa de perfeição, ENTREGAR-SE sem reserva à ação
do Espírito Santo. Mas, nesta manhã, a divina Bondade dignou-se
me agraciar com uma visão toda particular. Estava me preparando para
começar minha meditação, quando ouvi o ressoar de vários
sinos chamando os fiéis para assistir aos divinos Mistérios.
Neste momento, desejei unir-me a todas as missas que estavam sendo celebradas
e com este intuito, dirigi a minha intenção para que participasse
de todas elas. Tive então uma visão geral de todo o universo
católico e de uma profusão de altares nos quais se imolava,
ao mesmo tempo, a adorável Vítima.
O Sangue do Cordeiro sem mancha corria abundante sobre cada um desses altares
que me pareciam envoltos numa leve fumaça que subia para o céu.
Minha alma era tomada e penetrada por um sentimento de amor e de gratidão
à vista dessa tão abundante satisfação a nós
oferecida por Nosso Senhor. Mas também surpreendia-me muito o fato
de que o mundo inteiro não se achasse santificado em conseqüência.
Perguntava-me como era possível que o Sacrifício da Cruz, oferecido
uma só vez, tenha sido suficiente para salvar todas as almas e que,
renovado tantas vezes, não bastasse para santificá-las todas.
Eis a resposta que julgo ter ouvido: - O Sacrifício é sem dúvida
suficiente por si mesmo e o Sangue de Jesus Cristo mais que suficiente para
a santificação de um milhão de mundos, mas às
almas falta corresponder generosamente. Pois o grande meio para entrar na
via da perfeição e da Santidade – é o de ENTREGAR-SE
ao nosso Bom Deus.
Mas que significa ENTREGAR-SE? Percebo toda a extensão desta expressão
“ENTREGAR-SE”, porém não posso explicitá-la.
Sei apenas que é muito extensa e abrange o presente e o porvir.
ENTREGAR-SE é mais que se dedicar; é mais que se doar; é
até maior que se abandonar a Deus. ENTREGAR-SE, finalmente, significa
morrer a tudo e a si mesmo, não se preocupar mais com o EU a não
ser para mantê-lo sempre orientado para Deus.
ENTREGAR-SE é ainda mais que não se procurar a si mesmo em nada,
nem no espiritual, nem no corporal; quer dizer deixar de procurar a satisfação
própria, mas unicamente o bel-prazer divino.
É preciso acrescentar que “ENTREGAR-SE” significa, também,
esse espírito de desapego que não se prende em nada, nem nas
pessoas, nem nas coisas, nem no tempo, nem nos lugares. É aderir a
tudo, submeter-se a tudo.
Mas, talvez se acredita que isso seja muito difícil de se conseguir.
Desenganem-se, não existe nada mais fácil de se fazer e nada
tão suave de se praticar. Tudo consiste em fazer uma só vez
um ato generoso, dizendo com toda a sinceridade de sua alma: “Meu Deus,
quero ser inteiramente seu (sua), queira aceitar minha oferenda”. E
tudo será dito.
Permanecer de agora em diante nesta disposição de alma e não
recuar diante de nenhum dos pequenos sacrifícios que possam servir
ao nosso progresso em virtude. Lembrar-se que SE ENTREGOU.
Rogo a Nosso Senhor que forneça o entendimento desta expressão
a todas as almas desejosas de Lhe agradar, inspirando-lhes um meio de santificação
tão fácil. Oxalá fosse possível compreender de
antemão toda a suavidade e toda a paz que se desfruta quando não
se guarda reserva com nosso Bom Deus!
De que forma Ele se comunica com a alma que O procura com sinceridade e que
soube ENTREGAR-SE. Experimentem e vereis que lá é que se acha
a felicidade procurada em vão alhures.
A alma entregue encontrou o Paraíso na Terra, pois ali goza esta paz
suave que constitui em parte a felicidade dos eleitos”.
Sta. Tereza Couderc