Resposta à carta do Pe. José Possidente
Reverendíssimo Padre
Relutei muito antes de responder à sua carta, porque tinha consciência de estar pisando em campo minado para iniciar uma batalha árdua que só viria acrescentar prejuízos à minha já tão debilitada saúde.
Mas, desde o momento em que o senhor procurou demonstrar-me que o ecumenismo de João Paulo II é "bom" (!...), sinto-me no dever de entrar nesta contenda sob pena de incorrer no pecado de omissão.
Em sua carta, primeiramente, me é solicitado que não importune determinado cidadão católico (omito-lhe o nome por um dever de caridade) enviando-lhe, como o faço também a outros, impressos esclarecedores quanto ao acordo dos "padres de Campos" com o Vaticano. O senhor insiste que a pessoa em referência é um doente. Ora, devo lembrar-lhe que trata-se de um professor, poliglota, exímio tradutor, culto e inteligente. Será que o senhor acha que a verdade pode fazer mal ou até mesmo adoecer alguém? Ainda mais em se tratando de pessoa de reconhecida capacidade intelectual?
Em seguida, o senhor me acusa de aproveitar-me dos fiéis "quando se reúnem", para fazer confusão "sob o pretexto de que não se pode ouvir e aceitar só o que os padres de Campos dizem". Logo depois o senhor se contradiz quando afirma que eu não freqüento suas reuniões que poderiam esclarecer minhas "dúvidas". Eu promovo "confusões" nas reuniões e nelas nem sequer compareço?... Curioso! Não sabia que "esclarecer" era sinônimo de "fazer confusão"! Preciso consultar o Aurélio mais amiúde.
Aliás, a bem da verdade, deve ser dito que os padres da Administração Apostólica S. João Maria Vianney querem mesmo que os fiéis só ouçam e aceitem o que eles dizem. Prova disto é o sermão, em Missa dominical, onde determinado padre pede que não leiam, e rasguem, os folhetos que receberem pelo correio. Referindo-se, naturalmente, aos impressos que costumo enviar. Por que tanto medo de que os fiéis tomem conhecimento do que dizem os bispos da Fraternidade S. Pio X e outros eclesiásticos da tradição sobre o acordo com Roma? Dá para desconfiar!
Pessoalmente, o senhor me acusou de atitudes sedevacantistas e insiste, em sua carta, que eu ainda não esclareci se sou, ou não, sedevacantista. Meu bom padre, tudo o que faço hoje aprendi com o senhor e os demais sacerdotes da tradição de Campos. Minhas atitudes sempre estiveram de conformidade com os seus ensinamentos. Eu não mudei, sou o mesmo. Por isso, pergunto-lhe eu agora: antes de dar vivas a João Paulo II, o senhor era sedevacantista?
Sua declaração é enternecedora: "Eu sempre quis ser católico romano. Desde o dia do meu batismo, por graça e misericórdia de Deus, o sou". "Mas, antes", o senhor "não era considerado juridicamente como tal". Nunca ouvi o senhor dizer isto antes do "antes". Creio que uma pessoa só não pode ser considerada juridicamente como católico se estiver excomungada. O senhor era excomungado, Pe. José? Os "padres de Campos" eram todos excomungados? Pergunta tola, concordo, mesmo porque os "padres de Campos" reconheceram a validade da excomunhão em carta dirigida ao Papa João Paulo II. Releia esta pérola: "E se, por acaso, no calor da batalha... cometemos algum erro ou causamos algum desgosto a Vossa Santidade... suplicamos o seu paternal perdão." Que desgosto maior poderiam os "padres de Campos" ter causado ao papa do que a Sagração de D. Licínio Rangel? A ponto de o pontífice ter aplicado o castigo máximo da Igreja.
Está evidente, portanto, que entre outros "erros" e "desgostos" pediram perdão a João Paulo II, principalmente, pela sagração de um bispo sem autorização do papa, reconhecendo como válida a excomunhão. Roma também entendeu dessa forma o pedido de perdão, na certeza de que ele se referia à sagração de D. Licínio Rangel e conseqüente excomunhão, como se observa na nota explicativa publicada no L'Osservatore Romano (ed. port. 26/1/02) precedendo a carta-resposta de João Paulo II. Diz o órgão oficioso do Vaticano: "D. Licínio Rangel.... dirigia uma carta ao Santo Padre, onde pedia para ser absolvido da excomunhão que incorrera por ter aceitado ser sagrado bispo sem mandato pontifício." Está bem claro, não acha?
Então pergunto eu, por que nos enganaram durante uma década, dizendo que a excomunhão não era válida? Foram reuniões, entrevistas, uma infinidade de artigos na imprensa citando inúmeros santos e teólogos para argumentarem sobre a nulidade da excomunhão. Gastou-se toneladas de papel e perdeu-se um tempo precioso. E para quê?
Agora convencidos da validade (?) da excomunhão, foram sevandijar-se diante de João Paulo II pedindo perdão. Lamentável!
É interessante salientar que somente após a constatação de que D. Licínio Rangel sofria de um mal incurável, é que se passou a temer os efeitos da excomunhão. O receio, o pavor de morrer excomungado (?) aparenta ter sido a causa principal, o ponto crucial que os levou a fazer acordo com a Roma neomodernista contra quem lutaram com destemor durante tantos anos. Há outra explicação para esse abaixar de cabeças implorando perdão?
Curioso! D. Licínio Rangel se apresenta como sucessor de D. Antônio de Castro Mayer na tradição de Campos. D. Licínio não está mais excomungado. D. Antônio continua excomungado. Dá para entender?
Muito interessante o seu oportunismo inserindo na sua carta uma pergunta que não me fez e uma resposta que, obviamente, não dei, para entrar no assunto que lhe interessava: o ecumenismo. Diz o senhor que me perguntou "o que diz João Paulo II sobre o ecumenismo?" E eu teria lhe respondido "não sei" (!...). Não houve a pergunta e nenhuma resposta foi dada. Se o senhor me fizesse tal pergunta eu lhe responderia: "leia o meu livrinho "E Assis se repete?" com 56 páginas, publicado em 20/12/2001". Anexo lhe faço presente de um exemplar. (Mas cuidado! Leia escondido, senão vão pensar que o senhor voltou a ser tradicionalista!).
O senhor pretendeu defender o ecumenismo de João Paulo II com excertos esparsos colhidos pelo Pe. Fernando Rifan, mestre em fazer citações à parte do contexto. Sobre o ecumenismo, lembro-me de que, numa tarde, há vinte anos atrás, quando iniciei uma polêmica com o Pe. Antônio Ribeiro do Rosário, estávamos no Centro Catequético, quando o senhor virou-se para outro sacerdote, não sei precisar qual, dizendo: "O Pe. Rosário assumiu mesmo o progressismo." Agora que o senhor defende o mesmo ecumenismo que o Pe. Rosário à época, o que deveria eu dizer ao senhor, Pe. José?
A julgar pela sua defesa, com adjutório do Pe. Fernando Rifan, sobre o ecumenismo de João Paulo II, pode-se presumir que no próximo encontro de religiões em Assis (Assis III) haja um banquinho reservado para a Administração Apostólica S. João Vianney entre os participantes.
Sua citação de um trecho da carta de Dom Castrillón Hoyos a Dom Bernard Fellay é bem significativa. Ei-la: " Nenhum herege e cismático, em toda a história da Igreja, declarou estar enganado, sempre eles pensaram que era a Igreja que estava enganada." Será que os "padres de Campos" pretenderam ser os primeiros? Ora, meu bom padre, até há poucos meses o senhor era aliado de D Fellay, fazia as mesmas coisas que ele faz, defendia tudo aquilo que ele defende e com ele condenava todos os erros da Roma atual, neomodernista e maçônica. Disso todos nós católicos somos testemunhas. Se à Fraternidade S. Pio X se insinua ser "herética e cismática", o mínimo que se pode dizer da União Sacerdotal S. João Maria Vianney é que deixou de sê-lo. Concorda comigo? A citação é sua. A título de quê a fez?
Sua Eminência, o cardeal Hoyos, parece-me que deu uma cochilada, no que foi acompanhado pelo senhor. Está em perceptível contradição com João Paulo II, que disse exatamente o contrário, ou seja, que os hereges estavam certos e a Igreja enganada. É o que se entende quando o papa pediu perdão tanto a hereges como a cismáticos, infiéis, judeus, muçulmanos, e sabe-se lá mais a quem, pelos erros da Igreja no passado.
A propósito, meu bom padre, que fim levou a edição em português do periódico italiano "Sì Sì No No", que era publicada sob os auspícios de D. Licínio Rangel? Ah! Sim. Foi parar no "Índex" dos "padres de Campos". Pena! O valente tablóide combatia, veementemente, o progressismo e os erros e desvios doutrinários do atual pontífice. Isto agora é tabu. Interessante, ainda dizem que "a luta continua"! Só se a nova postura é lutar contra os tradicionalistas.
Ainda sobre "Sì Sì No No", a edição francesa publicou uma carta em que o autor lamenta profundamente o acordo com Roma. Sabe de quem, padre? Daquele escritor americano que aqui veio, há alguns anos, entusiasmado com a luta dos "padres de Campos", colher dados para escrever um livro com o título, salvo engano, "Na boca do leão". Coitado! Que decepção!...
Com todo o apreço que os seus venerandos cabelos brancos e a sua santa batina preta me suscitam,
In Christo et Maria UMA EXPLICAÇÃO Em carta enviada aos "padres de Campos", em março deste ano, respondendo ao Pe. Fernando Arêas Rifan, eu havia dito que não voltaria a escrever, iria dar descanso à minha caneta pois não podia digladiar-me com aqueles padres, amigos e aliados com quem por tantos anos lutei junto contra o progressismo. Eis-me, agora, a escrever novamente! Contradição? Recordei-me da parábola dos Talentos, onde um homem partiu para uma viagem e confiou seus bens a seus servos. Ao retornar, pediu-lhes contas. Dois servos dobraram a quantia que o seu senhor lhes confiara, e este os premiou como servos bons e fiéis que mostraram ser. O terceiro, com medo, havia cavado a terra escondendo o dinheiro. Chamado, também, a prestar contas, desenterrou o talento devolvendo-o ao seu senhor, tal como o recebera, sendo por isso acoimado de servo mau e preguiçoso, recebendo o merecido castigo. (Mt 25, 14-30). Não quero fazer o mesmo com a minha caneta e depois receber as penas que o servo mau mereceu. Considerei, ainda, aquela passagem do apocalipse onde Nosso Senhor Jesus Cristo não fez qualquer menção depreciativa àqueles que se mostraram frios ou se apresentaram quentes, mas o morno, o indiferente, este lhe causa náuseas. (Apoc 3, 15) Também não quero pertencer ao número dessa casta omissa.
Creio que estas duas passagens das sagradas escrituras justificam, plenamente, o meu retorno à luta.
Repito com o profeta Habacuc: "EU ESTAREI ALERTA... PERMANECEREI FIRME... E OLHAREI ATENTAMENTE PARA VER O QUE ME SERÁ DITO, E O QUE HEI-DE RESPONDER AO QUE ME REPREENDA." (Hab 2, 1) "A FÉ CORRE PERIGO NÃO SOMENTE DEVIDO AOS ASSALTOS DOS QUE ATACAM, COMO PELO SILÊNCIO DOS QUE TÊM O DEVER DE FALAR, DOS SERVIDORES DA PALAVRA DE DEUS."
Cardeal Albino Luciani (Papa João Paulo I)
Campos, 27 de junho de 2002
Hirley Nelson de Souza