Dom Marcel Lefebvre, Êcone, 25 de março de 1991
Em
29 de novembro de 1905, nascia Marcel numa família que contará
até oito filhos, dos quais dois serão padres, três religiosas.
Depois da formação no Seminário Francês, em Roma,
e a aquisição dos doutorados de filosofia (1925) e teologia
(1929), foi ordenado sacerdote eternamente, em 21 de setembro de 1929. Celebrou
a primeira Missa na sua paróquia de origem, com grande concurso de
povo, não menos de cinqüenta coroinhas cercando-o no altar.
A sua piedosa Mãe disse: "Eu estava no céu!".
Depois de um ano, como quinto coadjutor duma paróquia na diocese,
entrou no noviciado dos Padres do Espírito Santo.

Pronunciados os primeiros votos, o novo missionário
embarcou para o Gabão, em outubro de 1932, ao encontro de
seu irmão, Renato, já Padre. Foi sucessivamente missionário,
professor de Dogma e Sagrada Escritura, diretor do seminário como
do colégio. Amado dos colegas como dos alunos, era também
confessor do seu bispo, Dom Tardy. Nas pregações populares,
conferências, missões abertas e retiros, catecismos, administração
dos sacramentos, atendimento das confissões, contatos com os não-cristãos,
lhe dirá seu irmão no dia da consagração episcopal,
"vivendo realmente de coração com os indígenas,
você se fazia amado de todos, e muito deplorado quando foi transferido".
O Padre dirá simplesmente desta época: "Sempre a
obediência é uma coisa boa. Eu estava pensando que não
fazia senão meu dever. Nunca me arrependi".
Em 18 de setembro de 1947, ele é sagrado bispo, na cidade natal,
Tourcoing, pelo cardeal Liénart. O mês seguinte, estava chegando
a Dakar, onde o esperava uma esplêndida missão. Na
"História religiosa do Senegal", escreverá Jean
Delcourt: "De 1947 até 1962, Dom LEFEBVRE, apóstolo
infatigável, mudou a face do Senegal"; e o "Osservatore
Romano", jornal oficioso do Vaticano, declarará: "Em
1947, um jovem bispo espiritano, Dom Marcel LEFEBVRE, deu um impulso novo
à evangelização, abrindo novos centros católicos
e mandando novas forças apostólicas… Sua obra criadora
deixou pegadas profundas". Até os muçulmanos tinham
grande respeito e admiração para com o bispo.
Durante uns dez anos, quer como primeiro arcebispo de Dakar, quer como delegado
apostólico de toda a África francófona, Dom
LEFEBVRE criou vinte e uma dioceses, erigiu Seminários maiores, multiplicou
o número de sacerdotes indígenas. Mandou vir numerosas congregações
religiosas européias, fundou o primeiro Carmelo da África
negra, em Sebikhotane, e um mosteiro beneditino da congregação
de Solesmes. Principalmente, estabeleceu uma sólida hierarquia indígena.
De outro lado, desenvolveu a imprensa católica com máquinas
modernas, organizou a Ação Católica. Dotou cada missão
de um dispensário, desenvolveu as escolas do primeiro e segundo graus
(em 1947, 2000 alunos em nove escolas primárias; dez anos mais tarde,
12000 alunos em cinqüenta escolas, mais 1600 repartidos em 12 estabelecimentos
secundários). Delegado apostólico até 1959, se encontrava
Dom LEFEBVRE, cada ano, com Sua Santidade o Papa Pio XII: seus relatórios
e avisos estão na origem da encíclica "Fidei Donum"
que revivificou a obra missionária da santa Igreja.
Sobretudo, num país de maioria muçulmana, em que também
rivalizavam animismo e superstição como proselitismo protestante,
Dom LEFEBVRE se aplicou, com todas as suas forças, à obra
doutrinária. As Cartas Pastorais mostram a preocupação
sem cessar de edificar a sociedade cristã em bases profundas. Não
podemos aqui dar conta de todas, que contudo são notáveis,
mencionamos só a primeira carta que trata de um problema essencial:
a ignorância religiosa. O arcebispo lembra o dever, para todos, de
estudar o catecismo, os Livros Sagrados, e a obrigação dos
pais de dar aos filhos o bom ensinamento, quer dizer a transmissão
das verdades eternas como a prática das virtudes cristãs,
e também o conhecer reto das verdades naturais.
Resumindo a ação de Dom Marcel LEFEBVRE na África,
um bispo disse dele: "Serviu a causa da Igreja com todo o seu coração
e a sua fé".

Depois de quinze anos de episcopado vividos na África negra, Dom LEFEBVRE
deixou a direção da arquidiocese de Dakar ao filho espiritual,
Hiacinto THIANDOUM, que será cardeal. Nomeado para a pequena diocese
de Tulle, no centro da França, ficou lá apenas seis meses. Porém,
houve tempo para visitar todos os padres, considerando com cada um as dificuldades
do apostolado, da solidão. E indicava soluções práticas,
aconselhando que se agrupassem dois a dois, e usassem dum pequeno carro para
circular no interior, e assim tivessem a possibilidade de se encontrar juntos
no fim do dia.
Em julho de 1962, o Capítulo Geral dos Padres do Espírito Santo
elegeu-o como Superior Geral. Mas em 1968, será colocado de lado pela
mesma Congregação e, então, entregará a demissão.
1962-1965 foi também o período do funesto Concílio
Vaticano II. Nesta época ninguém podia saber, ou imaginar,
os frutos tão nocivos que seguiriam. Então, foi chamado Dom
LEFEBVRE, pelo Papa João XXIII, para fazer parte da Comissão
Preparatória do Concílio. Estava entusiasmado: a sua longa experiência
missionária, seu caráter dinâmico e o sentido prático
mostravam-lhe a necessidade de uma verdadeira reforma. Mas já, nesta
comissão, se encontrou a confrontação de duas tendências:
uma conservadora e dogmática, representada pelo Cardeal OTTAVIANI,
e outra muito progressista, na pessoa do Cardeal BEA.
Todos sabem o que foi o Concílio e as conseqüências trágicas:
uma verdadeira revolução. Dom LEFEBVRE descobriu pouco a pouco
as evoluções dos progressistas, e resistiu, tentando agrupar
os bons. Mas os inimigos haviam de muito tempo preparado os seus ataques,
e a maioria dos Padres conciliares ficou apática. O Cardeal Lefebvre,
próprio primo de Dom LEFEBVRE, escreverá: “Nunca perdoaremos
a Dom LEFEBVRE a sua atitude durante o Concílio...”
Deste tempo data a feliz amizade sobrenatural que uniu, até a morte,
Dom Marcel LEFEBVRE a Dom Antônio de CASTRO MAYER. Depois de ter conhecido
a Igreja florescente, que irradiava as sociedades e todas as instituições,
encontravam-se ambos os bispos na obrigação de verificar dolorosamente
que, com o favor do funesto Concílio, os erros do liberalismo e do
modernismo derrubavam até os fundamentos eclesiásticos com os
mais graves resultados: feridos os pastores, as ovelhas ficavam dispersas.
Com paciência e firmeza resistiram a esta “autodemolição”
da Igreja.
Dom Lefebvre na Igreja
Conduzido pela Providência – isso foi sempre a sua regra de agir
–, foi levado Dom LEFEBVRE a fundar uma obra de formação
sacerdotal. Pode assim se dizer que a Fraternidade São Pio X é
um fruto do Concílio, no sentido que a Igreja perene expressa-se algumas
vezes pela boca dos chefes progressistas, do modo que Caifás profetizou
durante a Paixão de Cristo. O leitor pode julgar disso, como do caráter
profético das declarações seguintes:
- “Dados os encorajamentos expressos pelo Concílio Vaticano
II, no decreto “Optatam totius” que concerne os seminários
internacionais e a repartição do clero; dada a necessidade urgente
da formação de padres zelosos e generosos conforme às
diretivas do decreto supracitado; constatando que os estatutos da Fraternidade
Sacerdotal São Pio X estão correspondendo com estes fins, Nós,
Francisco Charrière...” (decreto de ereção
canônica, 1/11/1970).
- “... a Fraternidade Sacerdotal vai poder harmonizar-se bem com
o fim querido pelo Concílio (...) para a distribuição
do clero no mundo”. (card. Wright, pref. da Sagr. Congr. para o
Clero, carta de aprovação e elogio, 1971).
É verdade que Dom Lefebvre sempre teve na intenção unicamente
o bem da Igreja. Estando a Igreja enferma principalmente do seu clero,
a solução primeira para não contribuir para destruição
geral se impunha: renovar a formação sacerdotal, manter intato
o Santo Sacrifício da Missa.Tinha 65 anos de idade quando começou
esta obra nova, e 83 anos quando, com Dom Antônio, sagrou quatro bispos
para a sobrevivência da Tradição, vida da santa
Igreja.
Passados
já mais de dez anos depois da morte do fundador, a Fraternidade Sacerdotal
São Pio X continua, apesar dos obstáculos: o número
dos sacerdotes se duplicou (agora 400), e mais de cinqüenta igrejas
ou capelas foram construídas no mundo, sem falar da multiplicação
dos priorados, escolas, colégios, e outras obras.
“Não há maior tesouro na Igreja que um padre santo”.
Esta convicção explica a vida própria de Dom Marcel
LEFEBVRE, e também toda a sua obra, tanto na África como na
sua ação desde o funesto Concílio.