AO EXMO. SR. ADMINISTRADOR APOSTÓLICO D. LÍCINIO RANGEL E REVERENDÍSSIMOS PADRES DA UNIÃO SACERDOTAL SÃO JOÃO BATISTA MARIA VIANNEY; 

Inicialmente devo expressar minha obediência e submissão às posições assumidas por Vv. Revmas. Para bem das almas, exaltação da Santa Madre Igreja e defesa da Tradição.

Assentada a poeira das emoções e das vivas a João Paulo II, que marcaram a sensibilizante cerimônia dita de “Reconhecimento”, julgo oportuno fazer algumas respeitosas considerações quanto ao que foi apresentado no evento e posteriores comentários.

Reconheço que não sou a pessoa talhada para essa tarefa, mas na falta de outras vozes, estas sim abalizadas, ouso formular algumas ponderações, apoiado no cân. 212 § 3º do Código de Direito Canônico que me confere o direito e o dever de manifestar aos pastores minha própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja, e de dar a conhecer esta opinião aos outros fiéis.

É de se observar que as conclusões finais que culminaram com a assinatura do documento papal, sem sombra de dúvida se escoram no que tantas vezes foi por Vv. Revmas. rechaçado nas últimas décadas: - A aceitação da missa de Paulo VI e do Concílio Vaticano II; não obstante tal aceitação vir agora emoldurada em ressalvas que despontam como suaves matizes a serená-la.

Em 1984, um decreto de João Paulo II permitia a volta da celebração do rito tridentino. O Pe. Fernando Rifan, porta-voz do clero tradicionalista “advertiu que iria ignorar a nova disposição da Igreja se ela obrigar, conjuntamente, o reconhecimento do “Novus Ordo Missae” instituído por Paulo VI”. (Heri et Hodie-nº 14-Outubro de 1984).

Passados 18 anos, vemos o mesmo Pe. Fernando Rifan, em entrevista ao “Monitor Campista” (27/01/02), fazer esta espantosa declaração: - “Já em relação à missa, nós guardamos a tradicional, mas reconhecemos a nova”.

O que antes se recusava com firmeza é agora aceito solenemente?

Na mesma edição do “Heri et Hodie” afirmava ainda o Pe. Rifan: - “Não somos contra modificações na celebração da Missa. Desde que não favoreçam à heresias como a missa nova, que diminui a profissão de fé nos dogmas eucarísticos, favorece os conceitos heretizantes tais como: que a missa é só uma memória, presença virtual e não real de Cristo na Eucaristia e, sacerdócio dos fiéis com atenuação ou negação do sacerdócio hierárquico”. Recorda, ainda, “que os padres tradicionalistas, já levantaram 60 razões pela quais a missa nova não pode ser reconhecida como legítima”.

Diante disso, dizer agora que a missa de Paulo VI é válida desde que celebrada “corretamente” (?) e com “reta intenção” (?) parece-me uma incoerência, uma nova tomada de posição conflitante com todo o conteúdo do opúsculo “Católicos Apostólicos Romanos – Nossa posição, na atual situação da Igreja”.

Como conciliar a intenção de consagrar na missa nova, conforme tem sido propalado por Vv. Revmas., com o que afirmaram em “Um Caso de Consciência”(pág.13)--: “Várias mudanças na missa nova favorecem a doutrina protestante de que não há Consagração na Missa, mas apenas uma narração ou comemoração da ceia do Senhor”?

Quanto ao Concílio Vaticano II não vejo como se podem interpretar seus desvios doutrinários “à luz da tradição”. O Espírito Santo servir-se das falsas religiões como meio de salvação, por exemplo, não há nada na tradição que possa atenuar essa heresia. Nem mesmo se se apelar para a “ignorância invencível”. O mesmo se diga da liberdade religiosa que o saudoso D.Antonio C. Mayer bem definia nesses termos: - “Essa doutrina é herética”. E a doutrina da colegialidade, sem qualquer respaldo na tradição? Pergunto: como interpretar o erro à luz da verdade? É possível?

Ainda sobre a missa nova, diga-se de passagem, para os progressistas parece não haver dúvida de que os Padres Tradicionalistas de Campos a aceitaram como legítima, docilmente e sem restrições, assim como o Concílio Vaticano II. O cardeal D. Eugênio Sales, que participou da solenidade e tem conhecimento de todos os documentos tornados públicos, está alardeando isto em seu longo artigo “Igreja Unida”. (O Dia -26/01/02).

Diante de tudo isto quem parece ter saído vitorioso foi o Papa João Paulo II que, doravante, ganha força redobrada para levar adiante o “seu” ecumenismo, pois já não podem mais acusá-lo de pretender agrupar todas as confissões religiosas quando não se esforçava em coibir as divisões do seu próprio rebanho. Agora João Paulo II está a cavaleiro para agitar com mais pujança os estandartes do ecumenismo.

É para se pensar! Sem qualquer intenção sarcástica, os maçons das lojas fincadas em território Vaticano, estarão se lamentando ou sorrindo?

É oportuno relembrar o que disse o padre Franz Schimidberger em entrevista a “30 dias” (julho-1991): - “Estamos firmemente ligados à Cátedra de Pedro, mas não aceitamos acordos... com a nova liturgia, com os erros do Concílio Vaticano II e com a iníqua laicização dos Estados católicos”. E mais adiante: “A divina Providência livrou Dom Lefebvre de uma grave armadilha, revelada abertamente pelo cardeal Paul Augustin Mayer no último número de 30 Dias, quando disse que quem volta à comunhão com Roma deve reconhecer o valor jurídico e doutrinal da nova liturgia!”

Quando D. Eugênio Sales diz em seu artigo já citado, referindo-se a Dom Licínio Rangel e aos sacerdotes tradicionalistas, que “no mesmo documento aceita o Concílio Vaticano II como um dos Concílios Ecumênicos da Igreja Católica e o “Novus Ordo Missae” promulgado pelo Papa Paulo VI” não parece estar fazendo coro às palavras do cardeal Paul Augustin Mayer?

Aceito João Paulo II como Papa da Igreja Católica, Apostólica, Romana e estou pronto a prestar-lhe obediência em tudo o que não se desviar do Depósito da Fé; aceito a Administração Apostólica S. João Batista Maria Vianney com todos os procedimentos que marcaram a sua ereção; louvo os esforços do Revmo. Pe. Fernando Rifan nas prolongadas e estafantes negociações com a Santa Sé; contudo, reservo-me o direito de não reconhecer a missa nova e os decretos heréticos do Concílio Vaticano II, permanecendo coerente com tudo o que a esse respeito me foi dito e ensinado pelo clero tradicionalista de Campos.

Pedindo a bênção e orações de Vv. Revmas. Sou o humilde servo em Cristo,

Hirley Nelson de Souza

Campos, 28 de Janeiro de 2002.

Hirley Nelson de Souza

Caixa Postal nº 114463

28001-970 – Campos - RJ

OS FRUTOS DO “RECONHECIMENTO”

   Análise de trechos do artigo de D. Eugênio Sales no jornal O DIA de 26/01/2002 – “Igreja unida”.

“É esse o nosso pedido: que sejamos aceitos e reconhecidos como católicos (...). Humildemente suplicamos seu paternal perdão”.

Estas reticências, omitindo cuidadosamente o texto para o que de fato se pede perdão, sem pretender fazer juízo das intenções do Senhor Cardeal, parecem ter sido cuidadosamente colocadas para dar a impressão de que o clero tradicionalista, ao pedir para ser reconhecido como católico, está fazendo um “mea culpa”, reconhecendo que estava errado em sua posição face à crise na Igreja, e é por este motivo que pede perdão.

Nessa ocasião, o bispo Dom Licínio Rangel em seu nome, e no de todos os sacerdotes, leu e assinou uma declaração na qual diz: “Reconhecemos o Santo Padre, o papa João Paulo II, com todos os seus poderes e prerrogativas, prometendo-lhe nossa obediência fiel e oferecendo a nossa oração por ele”. No mesmo documento aceita o Concílio Vaticano II como um dos Concílios Ecumênicos da Igreja Católica e o “Novus Ordo Missae”, promulgado pelo Papa Paulo VI.

            Eis o Senhor Cardeal trombeteando aos quatro ventos, para gáudio dos progressistas, que agora, o clero tradicionalista de Campos passou a aceitar a missa nova e o Concílio Vaticano II.

Repete-se a parábola do filho pródigo (Lc 15,11-35). Aliás, eu ouvi a referência dos próprios lábios do administrador apostólico.

            Não haveria nada de mais em se fazer referência à parábola do filho pródigo. Porém, acrescentar que ouviu isto do próprio D. Licínio Rangel, soa como se ele estivesse se comparando ao filho pródigo em sentido amplo. Parece uma colocação tendenciosa que dá a entender que D. Licínio, tal como o filho pecador da parábola, reconhecia também que havia errado em tudo o que fizera e, arrependido, voltava à casa o pai (Vaticano) pedindo perdão.

PROFISSÃO DE FÉ CATÓLICA

ONTEM

REJEITAMOS, de modo especial:

- A Missa nova, porque “constitui, tanto no seu conjunto como em pontos particulares, um presssionante afastamento da Teologia católica da Santa Missa, tal como foi definida na sessão XXII do Concílio de Trento” (carta dos Cardeais Ottaviani e Bacci a Paulo VI, em 5/10/1969). De fato, o Novo Ordo obscurece as expressões que sublinham os dogmas eucarísticos, aproximando a Missa da ceia protestante e não envolvendo mais uma nítida profissão de fé católica.

                                                                       Profissão de Fé Católica

                                                                                              Assinada por D.Licínio

                                                                                              Rangel e 25 padres em 03

                                                                                              de Agosto de 1997.

HOJE

reconhecemos

a validade do Novus Ordo Missae, promulgado pelo Papa Paulo VI, sempre que celebrado corretamente e com a intenção de oferecer o verdadeiro Sacrifício da Santa Missa.

Cerimônia na Basílica Menor de SS. Salvador em 18/01/02.

        SEMPRE


“Nossa Mãe, a Santa Igreja, amada e defendida por uns (os fiéis), odiada e abandonada pelos outros (os infiéis)... e isto [...] principalmente... nestes anos sombrios ­­– os mais tristes, o mais negros da história eclesiástica – neste último ano sobretudo, NO QUAL OS HERESIARCAS MODERNISTAS ACABAM DE FERIR NOVAMENTE, COM A LANÇA, O PRÓPRIO CORAÇÃO DE JESUS CRUCIFICADO! “Qui potest capere... capiat! “Quem tem coragem e fé, bem sabe que me refiro ao novo Ordo Missae!”

Pe. Henry Saey, artigo “La prière, la messe et le salut des âmes”, publicado na revista “Bulletin Indépendant d’Information Catlholique”, Bruxelas, nº 53-54, de janeiro-fevereiro de 1970, p.1.

“[...] o novo “Ordo Missae”, ao contrário do antigo, é uma forma vazia, pois nele se pode, com a mesma facilidade, inserir tanto um sacrifício da Missa inválido, quanto um válido; tonto uma farsa carnavalesca ou uma missa satânica, quanto uma (melancólica) festa católica agradável a Deus.

Prof. Dr. Manfred Erren, artigo “Traditionalismus und Fortschritt” (Tradicionalismo e progresso”), publicado na revista “ Das Zeichen Mariens”, Reussbuehl, Lucerna, Suíça, ano 3, nº 10, fevereiro de 1970,p.756.


  Campos, 07 de março de 2002.

A CARTA DO PADRE FERNANDO

            Chegou às minhas mãos uma carta do Revmo. Padre Fernando Rifan cujo conteúdo e expressões estão bem à feição do seu autor.

            Relevo, por se tratar de um sacerdote, os epítetos que me foram severamente assacados tais como o de ser pretensioso, de me enaltecer, de faltar com a caridade e humildade, de fazer acusações falsas e injustas e outros de forma menos explícita. Parece-me que o venerando Pe. Rosário fez escola com o seu estilo peculiar.

            Aceito com humildade a acusação que me foi imputada de falta de conhecimento a respeito de validade, legitimidade e liceidade. Mas não teria sido muito mais útil se o Pe. Fernando esclarecesse o que quis dizer quando afirmou que “a missa nova não pode ser reconhecida como legítima”? No entanto, para furtar-se ao necessário esclarecimento, achou mais cômodo colocar em evidência apenas o meu apedeutismo. Entendo que validade é a eficácia; legitimidade é o que está conforme a lei; liceidade diz respeito à permissibilidade. Posso não ser teólogo nem jurista, mas muito me honro, mesmo imerecidamente, em ser soldado de Cristo, em trincheira própria.

            Sou grato ao Revmo. Pe. Fernando pela observação de que o artigo 212 (CIC) só dá direito de opinião a pessoas que têm “ciência, competência e prestígio” (autoridade) (SIC), qualidades que certamente não se adequam a minha insignificante pessoa. Mas por que o Pe. Fernando não me fez admoestações como essa no período que ele mesmo qualifica de “meu passado de luta pela causa da Santa Igreja”? Talvez um certo poeta tivesse razão ao escrever em um de seus versos essa frase lapidar: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Note-se que o Revmo. Pe. Rifan colocou, entre parênteses, ao lado de prestígio, a palavra autoridade. Permitam-me corrigir o engano do Revmo. sacerdote: Prestígio é respeitabilidade enquanto a autoridade está ligada à competência. Exemplificando: num país comunista um bispo não tem autoridade, mas tem prestígio.

            O Padre Fernando acusa-me também de tentar “jogar os padres contra si mesmos”. Confesso que eu receberia isso com uma boa dose de humor não fosse o assunto de que estamos tratando alvo de tamanha seriedade. Ao que parece é o Revmo. sacerdote quem procura jogar os padres contra mim.

            Refiro-me, agora, à afirmação do Pe. Fernando sobre “as boas repercussões que houve no Brasil e no mundo católico” relacionadas ao acordo, perdão, “entendimentos”, apregoadas também no programa “Católico Sempre” (08/02/02) onde foram ressaltadas manifestações “de padres e até mesmo bispos” (Tradicionalistas?). Interessante, até então se tinha como sendo da tradição apenas cinco bispos e, a exceção de D. Licínio Rangel, nomeado Administrador Apostólico, não consta que eles e as centenas de padres da Fraternidade São Pio X, responsáveis pela assistência à tradição na maior parte do universo católico, tenham manifestado qualquer espécie de agrado ao acontecimento; muito pelo contrário. Também os Monges do Mosteiro da Santa Cruz apresentaram fortes críticas no seu boletim. Essas manifestações dizem, estas repercussões de que fala o Pe. Fernando parecem partir mesmo de adeptos da corrente progressista (a partir daquele dia, eles que eram inimigos, passaram a ser amigos – Lc 23,12). 

            Embora boa parte dos progressistas sejam simpáticos à volta dos padres de Campos ao seu convívio, alguns, entre eles D. Eugênio Sales (vejam só, este participou da cerimônia) não deixaram de fazer alusões tendenciosas ao acontecimento. O jornal “O Lutador” (MG.11 a 20 de fev. de 2002) chegou a ponto de fazer pilhéria com o pedido de perdão dos sacerdotes tradicionalistas. Bela repercussão! Aliás, não parece uma contradição quando o Pe. Fernando escreve “não importa como tenham interpretado os progressistas e os jornais...” e mais adiante “não viu as boas repercussões...?”

            E como pode ter sido este retorno à Roma, ou melhor, à comunhão com a Roma neo-modernista e maçônica, “UMA VITORIA DA TRADIÇÃO” conforme o bom sacerdote afirma em sua carta? É no mínimo uma ingenuidade fazer crer que a tradição católica se resume somente aos Padres de Campos. Segundo consta, a Fraternidade São Pio X responde por 93% da tradição no mundo católico. Seus bispos permanecem “excomungados” e a Fraternidade continua proscrita, por se recusarem a aceitar o acordo na forma proposta e aceita pela União Sacerdotal S.João Maria Vianney. É fato público e notório que os representantes da Fraternidade S. Pio x interromperam as negociações até que “Roma ponha as coisas no seu devido lugar e volte à tradição, a sua tradição”, como disse D. Bernard Fellay. Que o Pe. Fernando considere uma vitória dos padres de Campos, é sua opinião pessoal, mas que essa opinião não comprometa a tradição católica fazendo com que se acredite que a União Sacerdotal S. João Maria Vianney responde por toda a tradição. É até admissível que a Irmandade de São Pedro e o Barroux de D. Gérard Calvet tenham pensado tal e qual o Pe. Fernando Rifan, que seus acordos com Roma foram uma “vitória da tradição”. Dos nefastos resultados da defecção desses dois grupos todos temos conhecimento. Se a tradição vacila em Campos, ela continua sólida, inalterável e fulgente no mundo inteiro. O acordo, ou que outro nome tenha, feito pelos tradicionalistas de Campos, embora ofereça maiores vantagens, não passa de um caso isolado como foi o da Irmandade de São Pedro ou o do Barroux, jamais uma vitória da tradição.

            Ainda em sua carta, diz que “só com leituras esparsas ou citações de livros, jornais ou revistas, se corre o risco de cometer erros e injustiças ao falar ou escrever”. Tais citações que agora condena foi o que mais vi o Pe. Fernando Rifan fazer ao longo de todos esses anos. Será um Mea Culpa?

            Quando manifestei minha intenção de ficar coerente com tudo o que aprendi com os padres de Campos em relação à missa nova e o Concílio Vaticano II, não me passou pela cabeça, em momento algum, acusá-los de incoerentes, conforme interpreta o Padre Rifan. Mas refletindo sobre o assunto, vieram à mente todos os sofrimentos, humilhações, calúnias e até mesmo processo na Justiça, infligidos aos padres de Campos, expulsos de suas Paróquias e Capelas por se recusarem, publicamente, a aceitar o novo “Ordo Missae”. Eis que agora, passados tantos anos e em concorrida cerimônia que contou com a presença de inúmeros progressistas e do próprio algoz dos reverendíssimos padres, D. Carlos Alberto Navarro, o novo Ordo Missae é inexplicável e publicamente reconhecido. Como entender isto? Depois de ver D. Licínio Rangel abraçado a D. Carlos Alberto Navarro e com ele se confraternizando, nada mais me surpreende. Tudo passou a ser crível e passível de acontecer, até mesmo, num futuro bem próximo, ver um padre tradicionalista concelebrando com um sacerdote progressista.

            Recriminou-me, também, o Pe. Fernando Rifan por ter enviado cópias da minha carta anterior a todos os padres como se fosse uma “carta circular”. Se me dirigi a todos eles, mesmo que por uma questão de ética, a cada um deveria ser enviada uma cópia. Ou o Pe. Fernando entende que eu deveria dirigir-me apenas a ele?

            Quanto ao que se convencionou chamar de “reconhecimento”, o Pe. Fernando não admite que se fale em “acordo”, prefere um termo mais ameno para designar os ajustes com o Vaticano por isso opta por chamar de “entendimentos”. Sobre estas negociações com o Vaticano, D. Bernard Fellay, recordou em recente entrevista, a forma com que Roma se comportou com a Irmandade de São Pedro, impondo-lhe a celebração da missa nova, violando, assim, o direito que há dez anos atrás havia assegurado a essa Instituição Religiosa. Disse, ainda, D. Fellay, que foi procurado por sacerdotes da Irmandade de São Pedro que lhe advertiram: “Não aceitem a solução proposta, não assinem nada, seria sua ruína”.(Tradicion Católica-Madri-nº 169- outubro 2001). Eles sabem muito bem o que dizem, pois sofrem na própria pele as desastrosas conseqüências dos entendimentos com Roma. Quem nos garante que, no futuro, não farão o mesmo à União Sacerdotal S. João Maria Vianney, impondo a celebração da missa de Paulo VI a seus sacerdotes? Alguém poderá se opor depois de ter reconhecido a sua validade vinculada à intenção de consagrar?

            Na Páscoa de 1982, 25 padres assinaram uma Profissão de Fé Católica onde se lê em certo trecho: - “Somos Católicos, Apostólicos, Romanos, e o seremos, com a Graça de Deus, até a morte, pois nenhum poder ou autoridade nos afastará da Santa Igreja”. Ora se sempre se reconheceram Católicos, Apostólicos, Romanos, com a Graça de Deus, podem explicar-me por que sentiram, de repente, a necessidade de serem reconhecidos com este tão honroso título e justamente pela “Igreja Nova”, pela “Igreja Conciliar”, pela Roma neo-modernista e maçônica e pelo Papa, no mínimo, favorecedor da heresia? D. Antônio de Castro Mayer costumava inquirir muito sabiamente: - “Quem ainda é católico na Igreja Católica?”.

            O reconhecimento da Missa nova e a aceitação do Concílio Vaticano II foram um ato espontâneo dos Padres de Campos ou uma imposição para o retorno à comunhão com Roma? Pergunta infantil, concordo, mesmo porque a resposta é óbvia, o que nos permite classificar o que chamam de “entendimentos” com um nome mais pomposo. “PERMUTA DE CONCESSÕES” não estaria mais correto?

            Na verdade aceitação da missa nova nos deixa, por assim dizer, em situação um tanto constrangedora onde as perguntas são muitas e as respostas sempre claudicantes e nada esclarecedoras.

Vejamos.

            O que direi quando me perguntarem: “Mas os padres de Campos não foram perseguidos, humilhados, caluniados, expulsos das suas Igrejas e até processados na Justiça Comum “por declararem publicamente não aceitar o novo Ordo Missae”? (O Globo 11/1/87).

            O que direi quando me perguntarem: “Mas os padres de Campos não levantaram 60 razões expondo por que, em consciência, não podemos assistir a Missa nova?”(Folheto que correu mundo)

            O que direi quando me perguntarem: “O jornal dos padres não afirmou que a Missa nova e o Ecumenismo do Vaticano II, na atualidade, são os principais inimigos da tradição católica?” (Ontem Hoje Sempre nº 47-Jul/agosto 98).

            O que direi quando me perguntarem: “Mas o Padre Fernando Rifan não disse que a missa nova “é contra a nossa fé” e que é “ofensiva a Deus Nosso Senhor?” (Folheto Missa Nova ou Missa Tridentina).

            O que direi quando me perguntarem: “Mas os padres tradicionalistas de Campos não afirmaram que não podiam silenciar sobre o caráter nocivo da missa nova?” (Heri et Hodie nº 5-Nov. 83- Non Possumus assinado por 25 padres).

            O que direi quando me perguntarem: “Mas D. Licínio Rangel não disse que os fiéis não queriam se expor a perder ou enfraquecer a Fé assistindo a missa nova? (Ontem Hoje Sempre nº 47 – Jul/agosto 98)”.

            O que direi quando me perguntarem: “Mas os padres tradicionalistas de Campos não escreveram e publicaram o livro “UM CASO DE CONSCIÊNCIA”, enérgica e minuciosa reprovação à missa nova?

            O que direi quando me perguntarem. “Mas não foi o Pe. Fernando Rifan que disse que a missa nova não é legítima?” (Heri et Hodie nº 14 – outubro 84).

            O que direi quando me perguntarem: “Mas diante desta nova posição assumida em 18/01/02, pode o católico tradicionalista assistir à missa nova? O que antes era proibido agora é permitido?”.

            Essa missa fabricada com a intervenção direta de seis pastores protestantes, tendo como principal artífice Mons. Aníbal Bugnini, tantas vezes acusado de pertencer à maçonaria, não pode ser católica, muito menos apostólica e mesmo com o aval do Papa liberal ela não é romana. Por que os padres de Campos gastaram toneladas de papel e perderam um tempo preciosíssimo, durante anos, combatendo acirradamente a missa de Paulo VI e agora a reconhecem, como que passando uma borracha em todo o passado de lutas contra esse rito, como se fosse condição sine qua non para possibilitar os chamados “entendimentos”?

            E o Concílio Vaticano II, não dizia D. Licínio Rangel que “foi um verdadeiro 89 na Igreja, ou seja, fez eclodir na Igreja nova revolução do mesmo espírito da francesa de 1789”? (artigo “Anticristo em várias frentes”).

            Mas o Concílio, já ouvi um padre dizer em reunião de associação religiosa, tem muitas coisas boas. Santa Inocência! Se um criminoso der veneno puro à sua vítima ela não irá tomá-lo. Mistura-o, então, a saborosas guloseimas que a vítima deglute prazeirosamente. Se o Concílio não viesse recheado de pontos autênticos da doutrina, estabelecendo apenas os desvios da refinada heresia, claro que, como todo veneno perceptível, seria rejeitado.

            Vejamos o que disse D. Bernard Fellay após a interrupção das negociações com Roma, a respeito do Concílio: - “A linguagem do Concílio se aperfeiçoa e se torna precisa em vários pontos que devemos agradecer, em particular, as intervenções e ensinamentos do Papa João Paulo II. Assim, pois, há somente uma maneira autorizada de compreender o Concílio, Não à luz da tradição, mas sim à luz dos ensinamentos do atual papa. Me dá vontade de responder: “Pois bem, se seguirmos suas autênticas interpretações acabaremos em Assis, no meio da famosa Cúpula inter-religiosa, ou na selva sagrada de Togo, em uma sinagoga ou numa mesquita”. (Tradicion Católica-Madri nº 169 – out. 2001).

            Campos ganhou uma Administração Apostólica. Mas que não se esqueçam de que o Papa que nomeou D. Licínio Rangel Administrador Apostólico é o mesmo Papa que tem nomeado bispos e Cardeais reconhecidamente hereges.

            A luta continua, dizem. Como esperam continuar esta luta? Quem vai lutar contra o ecumenismo, bandeira do pontificado de João Paulo II? Quem vai combater a liberdade religiosa se é este mesmo papa que a coloca em prática? Quem ousará pelejar contra a missa nova? Se levarmos em consideração que o Administrador Apostólico é subordinado diretamente ao atual pontífice, qualquer pronunciamento que venha a ser feito que destoar das suas avançadas idéias ou causar algum desconforto ao Vaticano, certamente será imposto ao “imprudente”, no mínimo, um “obsequioso silêncio”. Quando Roma começou a se sentir incomodada com a posição de D. Antônio de Castro Mayer frente a nova missa, o próprio Secretário de Estado do Vaticano Villot, juntamente com o Cardeal Sebastião Baggio, intervieram “com recomendações de reserva e discreções que se impõem”. O cardeal Dario C. Hoyos admitiu que podem ser feitas “algumas observações teológicas sobre determinados pontos”, mas não admite que se faça críticas ao Concílio. Quem irá se atrever, temerariamente, a combater os erros e heresias do Vaticano II?

            Ainda sobre o retorno à comunhão com Roma recorremos a Santo Atanásio, tantas vezes apontado como exemplo de fidelidade à Santa Igreja.

            A propósito de fidelidade, quero abrir um parênteses para uma citação do Pe. Fernando Rifan, onde ele diz “E é esta fidelidade (aos princípios e ensinamentos da Santa Igreja) que está nos custando caro, mas é nosso dever de consciência para com Deus e a Igreja” (Folha da Manhã – 27/07/89). Caro, já não custa mais! E o dever de consciência?

            Voltando a Santo Atanásio, agora, imaginemos hipoteticamente o santo aflito e receoso com a excomunhão, pensando dessa forma: “combati o bom combate... agora chega! Chega de ser chamado de rebelde, desobediente, de cismático, de excomungado! Não me satisfaço em ser católico, quero ser também reconhecido como tal”. E assim, poder-se-ia imaginar, ainda supostamente, o grande santo curvando-se ante o papa favorecedor da heresia ariana, pedindo o paternal perdão. Essa suposição, absurda no caso de Santo Atanásio, não nos faz lembrar algum fato bem recente?

            Os padres da União Sacerdotal S. João Maria Vianney deveriam pedir perdão a tantos teólogos e santos que evocaram para combater esta Roma neo-modernista e maçônica. Deveriam pedir perdão a Suarez, a Caetano, a S. Roberto Belarmino, a D. Guéranger, e a tantos outros baluartes da ortodoxia. Deveriam pedir perdão a D.Marcel Lefebvre e a D. Antônio de Castro Mayer que preferiram morrer com o estigma da excomunhão a dar aval ao erro aceitando acordos comprometedores com aqueles que pregam um outro Evangelho que já não é o do Senhor Jesus Cristo. Será que aqueles mesmos que antes nos instavam a resistir ao papa que destrói a Igreja, ao papa que agride as almas, baseados no parecer de tão eminentes teólogos, agora querem nos fazer curvar ante o papa favorecedor da heresia modernista, em nome da obediência, e nos incardinar na “Igreja Nova”, na “Igreja Conciliar”?

            Esgotaram todos os argumentos para nos convencer da invalidade das excomunhões. Conseguiram! Mas ao que tudo parece indicar eles próprios não teriam ficado convencidos.

            Quando me refiro aos padres de Campos não tenho a intenção de generalizar, pois creio que uma boa parte agiu de boa fé ao concordar com esta adesão à Roma neo-modernista e maçônica, a Igreja Nova, a Igreja Conciliar, enquanto alguns o fizeram em nome da obediência, certamente. Acredito também que outros tantos consentiram a contragosto. O poder de persuasão do Pe. Fernando Rifan e a sua enorme habilidade em impor suas idéias, assim como a facilidade que tem de fazer calar aos que contra ela ousam se opor, também deve ter influído muito.

            Quando o Revmo. Pe. Fernando partiu para as negociações com Roma, naturalmente foi imbuído do espírito que o levou a escrever o seu famoso “Escândalo Farisaico” que denunciou tantos fatos graves envolvendo o atual pontífice. Retornou dando vivas entusiásticas a João Paulo II. É no mínimo estranho! Influência do meio?

            O acordo com Roma se nos apresenta como um pote de mel que se quebra. Não faltarão moscas sequiosas, vindas sabe-se lá de onde, a refestelar-se nos cacos ainda besuntados do precioso néctar derramado. A maçonaria e os modernistas devem estar em festa com a possibilidade de implodir, de uma vez por todas, a outrora temida tradição da planície Goitacá, sempre considerada um bastião inexpugnável que impunha intrépida resistência às suas invectivas. Deus proteja a tradição em Campos da torpe infiltração demolidora que poderá vir a ocorrer em suas fileiras ante as novas perspectivas que se lhes apresenta muito favoravelmente e que eles bem sabem como aproveitar (os filhos deste mundo são mais sábios que os filhos da luz – Lc 16,8). Se já o fizeram no seio mesmo da Santa Igreja! O que não farão agora que a porteira do redil foi aberta expondo as pobres ovelhas aos olhares cobiçosos de uma alcatéia de lobos famélicos. Que o Bom Pastor vele pelo seu pequeno e ameaçado rebanho.

            Não quero e nem posso me digladiar com os Padres de Campos como fiz no passado com bispos e padres progressistas, ocasião em que não me faltou o apoio da tradição. Hoje, extenuado, sem estímulo, com a saúde seriamente abalada, dou descanso a minha caneta. Esta carta para mim é um ponto final. Não retornarei ao assunto nem voltarei a escrever, mesmo que incitado a fazê-lo. Guardo minha caneta como um soldado que depõe as armas, mas não se entrega ao inimigo (a Roma neo-modernista e maçônica).

            Abandono a luta, mas permaneço firme na Fé.

Hirley Nelson de Souza

            Lembrete: - Há alguns meses, o Pe. Fernando Rifan incitou-nos a não rezar o “Exorcismo contra Satanás e os anjos rebeldes”, do Papa Leão XIII, alegando instruções do Vaticano a esse respeito. Convém lembrar que D. Antônio de Castro Mayer, no seu “Por Um Cristianismo Autêntico”, nos adverte da necessidade de recitarmos essa eficaz oração. É bom ficarmos com D. Antônio, é mais seguro. Agora, mais do que nunca, deve-se rezar, e com insistência, o Exorcismo de Leão XIII. Deixar de rezá-lo, só a Satanás interessa.

QUE A UNIÃO SACERDOTAL

S. JOÃO MARIA VIANNEY

MIRE-SE NESTE ESPELHO

DIÁLOGOS

E ACORDOS

Antes das Sagrações dos quatros novos bispos, no dia 2 de Junho de 1988, Dom Marcel Lefebvre interrompeu as tratativas com Roma, escrevendo ao Papa João Paulo II: “Dado que a finalidade dos colóquios não é a mesma para a Santa Sé e para nós, cremos preferível esperar tempos mais propícios ao retorno de Roma à Tradição”.

O Mosteiro do Barroux, França, todavia, aceitou prosseguir o diálogo, e Dom Gérard Calvet, então prior, hoje abade, assinou o acordo, explicando: “Nenhuma contrapartida doutrinária ou litúrgica me foi pedida...”.

No entanto, conforme noticia “Fideliter” Nº 76, “na Quinta-feira Santa desse ano, o mesmo Dom Gérard participou da Missa Crismal no banco reservado aos religiosos, na catedral de Avinhão. Sua assistência à missa conciliar, continua “Fideliter”, tem valor de caução. Ele mostrou publicamente que está de acordo com o que ali realizava-se, pois recebeu o ósculo da paz”.

No dia 28 de setembro último, Dom Gérard, com uma comissão do seu mosteiro, foi recebido em audiência por João Paulo II. Eis alguns trechos da alocução do papa àqueles monges: “... agrada-me saber que vosso relacionamento com a Igreja diocesana torna-se cada dia mais leal e mais fraternal...

A Santa Sé concedeu a vosso Mosteiro a faculdade de usar os livros litúrgicos em uso em 1962... É bem evidente, que, longe de procurar frear a aplicação da reforma empreendida após o Concílio, essa concessão é destinada a facilitar a comunhão eclesial das pessoas que se sentem ligadas a essas formas litúrgicas...

Aproveito o ensejo desse encontro para me dirigir àqueles e àquelas que estão ligados à Fraternidade São Pio X. Eu os convido a se colocarem sob a direção do sucessor de Pedro e a entrar em contato com a Comissão “Ecclesia Dei”. (conf. “L’Osservatore Romano”, 2/10/90 – edição francesa; “Bolletin Officiel Du District de France”, da Fraternidade São Pio X, 12/10/90).

Para voltar ao diálogo é preferível esperar que as autoridades da Igreja voltem a se orientar pela Tradição católica. Até mesmo um dos monges do Barroux pôde constatar, depois de uma visita a uma diocese “conservadora”, que o diálogo e os acordos visam atualmente a levar-nos ao Vaticano II e à Missa Nova: “Nossa visita a Dom X prova que todo trabalho em colaboração com os bispos é impossível: eles combatem o modernismo, mas não tem pontos de referência com a Missa, eles não vêem a raiz, pensam como o cardeal Ratzinger... que a Igreja deve combater os abusos voltando à aplicação pura e simples do Concílio”. (“Fideliter”, jan/fev. de 1989).

Este artigo foi publicado no

jornal ONTEM HOJE SEMPRE – Nº

08 – outubro/novembro - 1990


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