Carta a um amigo acerca do que aconteceu entre Campos e Roma

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PAX

Caro amigo,

Você gostaria de saber meu pensamento acerca do que aconteceu entre Campos e Roma?

            Desculpe-me o comprimento enorme da carta, mas num assunto de tamanha importância é necessário explicitar tudo muito bem.

            Quando saí do Seminário de Campos para o Mosteiro disse que queria guardar toda a formação doutrinal que lá recebi, e até hoje sou infinitamente grato por todos os ensinos que os Padres me deram tanto no Seminário como na Paróquia. E é por essa gratidão e adesão aos mesmos ensinos que, diante desses últimos acontecimentos estou profundamente escandalizado. Escandalizado não tanto pelo que me disseram, pelo que ouvi falar, mas pelo que vi e li com meus próprios olhos nos textos oficiais e fotos editados em diversas publicações. Portanto, o que gostaria de deixar bem claro é que não estou "doutrinado" ou que "aprendi bem a lição" (como se diz pejorativamente) por parte de meu superior ou dos Bispos ou Padres que por aqui passaram e expuseram a posição da Fraternidade S. Pio X; e que muito menos é meu intuito "ensinar o Padre Nosso ao vigário", mas só dizer o que eu penso, fundado no que aprendi.

            O que mais me abalou foi a leitura dos textos oficiais assinados pelos Padres e os fatos realizados, expostos pelas fotos, pois eles mostraram-me que realmente houve uma mudança nos Padres, naquilo que deles aprendi.

            Então vejamos:

            Um dia sentei-me para ler os textos que tratavam deste assunto e qual não foi minha decepção, perplexidade e escândalo mesmo, ao ler passagens como as que citarei.

            Na carta dos Padres ao Papa eles referem-se ao predecessor de João Paulo II nos seguintes termos: "o seu predecessor de egrégia memória, Paulo VI." Egrégia memória? O que é isso? Lembro perfeitamente quando Pe. Jonas me disse que a morte de Paulo VI foi um alívio para a Igreja. E agora Pe. Jonas, junto com os demais Padres assinam uma carta dizendo que Paulo VI foi um Papa de egrégia memória... Não é possível! Os Padres mudaram!...

            Ainda no texto se diz: "devido (...) a problemas que afetaram os católicos da linha tradicional (...) fomos considerados juridicamente à margem da Igreja." O que? Não entendi. Foi o próprio João Paulo II que nos excomungou (apesar de sabermos que tenha sido inválida essa excomunhão)! Foi o próprio João Paulo II que quis por-nos juridicamente à margem da Igreja! Ademais os termos "católicos da linha tradicional" são termos que sempre ouvi da boca de pessoas que não entendem a crise por que passa a Igreja. Entre os Padres sempre ouvi que somos católicos e que os progressistas são hereges.1 Esse modo de falar ("linha tradicional") supõe que haja a possibilidade de diversas linhas de pensamento dentro da única Santa Igreja. Que pessoas leigas e não tradicionais falem assim, vá lá. Mas os Padres usarem essa terminologia... Eles mudaram!... Mas digo aos meus botões: eles só estão empregando estes termos para conquistar a simpatia do Papa e do público. Mas novamente vem à minha mente aquele princípio de moral que os Padres me ensinaram: o fim não justifica os meios. Para alcançar o bem de o Papa e o público olharem com bons olhos os católicos tradicionais, não podemos empregar o mal de usar termos ambíguos, que dão a entender uma falsidade.

            Depois os Padres dizem: "queremos colaborar com Vossa Santidade (...) no combate aos erros e heresias." Até "ontem" os Padres combatiam João Paulo II porque este não combatia os erros e as heresias, mas, pelo contrário, os defendia. Será que agora os Padres acham que João Paulo II mudou? A reunião de Assis deste ano prova que ele não mudou... Será que foram os Padres que mudaram? Ao menos no modo de olhar o atual Papa, não vejo como poderei pensar que os Padres não mudaram...

            Na carta ainda há mais: "e se (...) causamos algum desgosto à Vossa Santidade, (...) humildemente suplicamos (...) perdão." Para qualquer leitor menos prevenido essas palavras querem dizer: "pedimos perdão por ter contristado Vossa Santidade com as Sagrações Episcopais de 1988 e de 1991". Provavelmente os Padres não tiveram essa intenção, mas ... é o que deixa entender. Novamente o mesmo problema: deixar a entender uma falsidade. Pois se a causa da Sagrações foi real, ou seja, justificava plenamente as mesmas, ainda que possa ter (injustificadamente) contristado o Papa, não deve ser objeto de arrependimento. O pior é que o órgão do Vaticano que publicou a carta-resposta de João Paulo II aos Padres fê-la preceder de uma nota explicativa que interpretava as palavras dos Padres no sentido de eles pedirem perdão pela Sagração de 1991, e, portanto, da excomunhão, dizendo: "D. Licínio Rangel (...) dirigia uma carta ao Santo Padre, onde pedia para ser absolvido da excomunhão que incorrera por ter aceitado ser ordenado Bispo, sem mandato pontifício." (cf. www.vatican.va e L’Osservatore Romano de 26 de janeiro de 2002 - edição portuguesa)

            Além desta carta, li também o comunicado que D. Licínio assinou juntamente com D. Roberto. Mais um golpe eu recebi. O que é que eu vejo? Novamente termos ambíguos, bem diferentes dos termos que os Padres sempre usaram. Esse documento diz que os Padres serão acolhidos "na plena comunhão eclesial" (?). Isso quer dizer que os Padres acham que eles não faziam parte da Igreja? Que eles realmente estavam excomungados? Ou simplesmente que eles estavam numa situação jurídica excepcional (situação causada, aliás, não por nós, mas pela heresia que campeia nos homens da Igreja)? Parece-me que os Padres dão esse último sentido àquelas palavras do documento, mas... nem todos entendem esse texto neste sentido! Os progressistas, os jornalistas e o povo em geral entendem nos dois primeiros sentidos.2 E, afinal, um dos objetivos desses tratados com Roma não era aproximar da Tradição o povo em geral? Mas isso vai ser feito ao preço de deixá-lo pensar que antes estávamos excomungados? O fim não justifica os meios...

            Mais abaixo o comunicado cita uma passagem do documento com o qual João Paulo II excomungou D. Antônio de Castro Mayer e D. Lefebvre. Cá entre nós: usar de um documento que condenou (injustamente) nossos pais?! Infelizmente a passagem escolhida desse infeliz documento foi ainda mais infeliz: "todos (...) devem ter uma nova consciência (...) da legitimidade (...) que representa (...) a diversidade dos carismas" etc. "Esta diversidade constitui a beleza da unidade na variedade." O que significa isso? Para João Paulo II, que é o autor desse texto, certamente significa o ecumenismo. É claro que para os Padres esse texto tem outro sentido. Mas atenção! - o verdadeiro sentido de um texto é o sentido dado pelo autor do texto! Ou seja, os Padres colocaram nesse comunicado um texto de João Paulo II exaltando o ecumenismo!!! Não dá para acreditar! Será que eles fizeram isso para agradar os progressistas? Mas, meu Deus, e a verdade onde é que fica? Ademais, qual terá sido a interpretação que os Padres deram à essa citação? Que possa haver unidade entre a doutrina tradicional e a doutrina progressista? Ou que a Missa tradicional possa ser posta em pé de igualdade com a Missa Nova? Mas D. Antônio e D. Lefebvre e os Cardeais Ottaviani e Bacci não provaram, com estudos aprofundados, que a Missa Nova constitui um afastamento impressionante da doutrina católica sobre o Sacrifício Eucarístico? E os Padres antigamente sempre nos ensinaram o mesmo...

            Minha tristeza não parou aí. Na declaração feita na Catedral, os Padres aceitam o Concílio Vaticano II "à luz da Sagrada Tradição." D. Antônio, D. Lefebvre e os Padres de Campos sempre nos ensinaram que há textos no Vaticano II que são inteiramente contrários ao ensinamento tradicional da Igreja e que, portanto, não podem ser entendidos "à luz da Tradição". Se os Padres dissessem: aceitamos todos os textos do Vaticano II que são conformes à Tradição, vá lá. Mas dizer, sem outras explicações, que aceitam o Vaticano II (em seu conjunto) à luz da Tradição?... Isso não! Ai! É triste constatar: os Padres mudaram... ao menos no modo de falar. Pois creio que interiormente não mudaram, mas... e os que os ouvem falar desse modo? O que vão entender que eles estão dizendo? Certamente vão entender que eles agora aceitam o Vaticano II, sem repúdio a nenhum texto do mesmo. Infelizmente devo dizer: isso é enganar o povo... pois o que ficará conhecido de todos são os textos oficiais e não as explicações dadas depois e só parcialmente difundidas.

            No item seguinte fala-se do reconhecimento da validade da Missa Nova quando celebrada corretamente, mas não se fala que a repudiamos pela maldade do texto da mesma. Os Padres, em 1982, declararam que se calar em circunstâncias como essas "causaria grave escândalo aos fiéis". Cito aqui mais extensamente o texto dessa declaração: "Aceitamos ou não o novo ‘Ordo Missae’? (...) Não poderíamos omitir uma palavra de esclarecimento (...). Nosso silêncio causaria grave escândalo aos fiéis, diante dos quais temos o dever de dissipar qualquer dúvida (...). Temos presentes as conseqüências que nos possam advir da parte dos homens, mas tememos muito mais as que nos adviriam da parte de Deus. (...) É esta doutrina da Igreja que nos leva a, em consciência, não poder aceitar a nova ordenação da Santa Missa, instaurada em 1969." (cf. Permanência no 166-167) Ah! Bons tempos em que ouvíamos a doutrina exposta em termos tão límpidos!...

            No item seguinte diz-se: "Empenhamo-nos em aprofundar todas as questões ainda abertas." Que questões? As questões que causam a divergência entre os católicos tradicionais e os progressistas? A meu ver a frase deixa no ar esse sentido. Se é isso que a frase quis dizer, isso significa que os Padres agora vão fazer como fez um monge do Barroux que se aprofundou em estudar o documento do Vaticano II sobre a liberdade religiosa até ao ponto de querer interpretá-lo à luz da Tradição e declará-lo conforme à Tradição? Que eu saiba, em todos os anos passados, os estudos sobre as doutrinas do Vaticano II (e as doutrinas delas emanadas) foram bem aprofundados. Por que declarar agora que vão se empenhar em aprofundar as questões abertas? Abertas? Quais são essas questões que estão ainda abertas, ou seja, ainda não esclarecidas? Infelizmente nova imprecisão, que deixa o campo aberto a interpretações as mais diversas.

            Mas infelizmente veio-me pouco depois outra "facada": um "esclarecimento" dos Padres. Parece que o fizeram no intuito de dissipar as dúvidas que estão surgindo nos espíritos. Parece-me, porém, que os pôs ainda mais na confusão.

            O texto começa narrando o fato da cerimônia ocorrida na Catedral, cerimônia essa que contou com a presença (e os Padres não se envergonham disso!? Mas antes o publicam?!) nada mais nada menos de D. Navarro. Meu Deus! Esse Bispo destruidor! Por que agora ele vem se congratular com os Padres? Foi porque ele (D. Navarro) mudou de idéia quanto ao Concílio Vaticano II e à Missa Nova, os quais ele quis impor aos Padres, sob pena de os expulsar das Paróquias? Ou foi porque ele interpretou essa cerimônia como uma "volta atrás" por parte dos Padres? E a presença dos outros Bispos progressistas? Não foi motivada também pela mesma interpretação? Lembro-me quando eu estava no Seminário e que o então Núncio foi ter uma reunião com os Padres e apresentou-se à essa reunião o Pe. Cipriano (que, se não me falha a memória, havia atacado D. Antônio). Os Padres corajosamente exigiram a retirada do mesmo como "persona non grata". E agora D. Navarro é acolhido à cerimônia como "persona grata"? Será que ele fez menos mal que o Pe. Cipriano? Para mim isso é um escândalo...

            O texto repete aquelas palavras dúbias que já citei do comunicado de D. Licínio e D. Roberto: "reconheceu em plena comunhão com a Igreja." Se quiser, pode rever meus comentários.

            Um pouco depois o texto diz que a Administração Apostólica tem "o direito de manter a Liturgia e a Disciplina Romana tradicional." Qual a novidade? Por acaso não tivemos sempre esse direito? Por acaso esse direito foi algum dia ab-rogado? Os Padres sempre nos ensinaram que não. Será que agora eles pensam de modo diferente?

            Depois lê-se que o reconhecimento da Administração Apostólica assegura o respeito "às nossas ‘características peculiares’." Ai! Então agora somos católicos com características peculiares? E os progressistas? São católicos simplesmente? Sem características peculiares? Os católicos "especiais" somos nós? Não! Não foi isso que sempre aprendi dos Padres. O que aprendi é que os católicos (simplesmente católicos) somos nós e que os progressistas são católicos (só Deus sabe se o são!) que aderem aos erros e heresias modernistas.

            O texto ainda diz (simplesmente, sem demais explicações) que ao Papa "se deve acatamento e obediência". Em 1982 os Padres diziam em sua declaração: "Baseados na Tradição não temos dúvida em afirmar que uma medida que ponha em risco a pureza e a integridade da Fé não deve ser aceita, seja qual for o Superior que a ordene" e "Toda obediência na Igreja está condicionada à fidelidade à Fé" e "A resistência é uma forma heróica de obediência." Essas afirmações já não as vejo mais nos últimos documentos dos Padres. Por que? Calando esse aspecto do problema, as pessoas, lendo esses textos, vão acabar pensando que devem acolher todas as ordens do Papa, mesmo as que eles têm obrigação de não obedecer. Ah! É triste ficar vendo isso!...

            Mais abaixo leio: "Nós éramos conhecidos" como "aqueles que absolutamente não reconheciam o Vaticano II." Quer dizer que agora os Padres aceitam o Vaticano II? O que eu sempre aprendi deles é que há documentos aceitáveis no Vaticano II. Mas isso é muito diferente de dizer que o Vaticano II é aceitável! Meu Deus, eu me pergunto se isso são palavras de "slogan" ou se realmente agora os Padres estão pensando assim!...Mesmo na primeira hipótese, não podemos brincar com essas coisas!... E depois a declaração diz: "Por isso, foi necessário expor a nossa verdadeira posição." Ah! Enfim! Expuseram a "nossa verdadeira posição"? Por favor, publiquem essa exposição! Para que todos saibam que os Padres de Campos rejeitam a Dignitatis Humanae (do Vaticano II), que D. Antônio e D. Lefebvre sempre nos ensinaram ser um documento totalmente em contradição com o Magistério da Igreja! Para que todos saibam que os Padres rejeitam a Gaudium et Spes (também do Vaticano II, documento esse, que o próprio Cardeal Ratzinger disse ser o contra-Syllabus!3)! Para que todos saibam que os senhores rejeitam o texto da Missa Nova, que igualmente D. Antônio e D. Lefebvre sempre nos ensinaram ser rejeitável, porque conduz à heresia! Mas será que foi isso que os Padres expuseram a Roma? Lamentavelmente (digo-o com dor no coração) parece que não..., pois Roma já conhecia essa nossa posição, e o texto diz, nas entrelinhas, que só agora ela foi " ‘entendida’ como ela é." Ou seja, parece que se calou e se omitiu o que nos separa e se falou somente o que nos une. Aprendi dos Padres que esse é um método ecumênico...

            Mais duas vezes o texto repete: "em perfeita comunhão com a Santa Igreja", "na plena comunhão da Igreja." Repito que, se você quiser saber o que penso destas expressões, pode voltar algumas páginas e ver o que escrevi quando trato do comunicado de D. Licínio e D. Roberto.

            O texto prossegue: "O Santo Padre retira todas as censuras eclesiásticas em que, porventura, tenhamos incorrido." Porventura? Há então no espírito dos Padres alguma sombra de dúvida acerca da não validade da excomunhão que nos foi infligida? E, com isso, eles lançam todos na dúvida acerca da situação em que nos encontrávamos até agora? Isso é cruel!...

            Mais abaixo leio: "sempre tivemos plena consciência da anormalidade, ocasionalidade e excepcionalidade da resistência, ansiando sempre por uma completa regularização e normalização." Os Padres sempre nos ensinaram que a anormalidade, ocasionalidade e excepcionalidade da nossa resistência era devida ao fato de ser anormal, ocasional e excepcional que os hierarcas na Igreja ensinem o erro, e não devido ao fato de nos encontrarmos numa situação jurídica excepcional (aliás, sem culpa nossa). Em outras palavras: uma completa regularização e normalização jurídica não nos traria (ou não nos deveria trazer) a cessação da resistência, pois não faria cessar a anormalidade, ocasionalidade e excepcionalidade de os hierarcas estarem ensinando o erro. Meu Deus, que confusão nas idéias esse texto estará causando...

            E ainda: "Beato João XXIII." Os Padres (ao menos os mais antigos) sabem muito bem quem foi João XXIII. Por que lhe dar este título do qual ele é inteiramente indigno? Para agradar os progressistas? Ou será que os Padres mudaram de idéia? Creio que não, ao menos os Padres mais antigos... Mas e o nosso povo? Lendo isso, vai começar a pensar que João XXIII foi realmente beato...

            Quando o texto diz que D. Antônio escreveu "sobre a aplicação dos Documentos promulgados pelo Concílio", não explicita que D. Antônio só o fez dos textos susceptíveis de serem interpretados catolicamente. Essa explicitação se faz necessária, para não dar lugar a mal entendidos, pois há textos do Vaticano II que não podem ser entendidos catolicamente. É o que D. Antônio ensinou claramente em seu artigo "A Anti-Igreja" (publicado por Heri et Hodie nº 33): "Ninguém pode, ao mesmo tempo ser católico e subscrever tudo quanto estabeleceu o Concílio Vaticano II." Antes, pelo contrário, ele diz, nesse mesmo artigo, que em seu conjunto "o II Concílio do Vaticano constitui-se numa anti-Igreja."

O texto ainda diz que D. Antônio e D. Lefebvre assinaram as atas do Concílio. A meu ver os Padres poderiam esclarecer que essas assinaturas tinham a significação de marcar sua presença nas reuniões e não no sentido de uma assinatura de aprovação aos documentos nelas publicados. Creio que para um leitor desprevenido essa passagem fá-lo-ia pensar que D. Antônio e D. Lefebvre aprovaram todos os documentos do Vaticano II. Realmente é triste ver como os termos estão turvos.

Em continuação leio: "Quanto aos ensinamentos do Concílio (...) é preciso que sejam aceitos em consonância com todo o conjunto do Magistério da Igreja." Aqui os "ensinamentos do Concílio" são tomados de forma global, sem excetuar nenhum: isso vai em oposição ao que nos ensinaram D. Antônio e D. Lefebvre sobre os ensinamentos de Gaudium et Spes, Dignitatis Humanae, etc., nos quais não há possibilidade de neles encontrarmos "consonância com todo o conjunto do Magistério da Igreja".

Ainda leio: "Muitos, aproveitando-se do Concílio, tentaram e ainda tentam introduzir doutrinas heréticas no seio da Igreja." Sempre aprendi no Seminário que esses "muitos"não somente "se aproveitaram do Concílio" como de uma ocasião, mas hauriram da doutrina do Concílio, como de uma fonte, tirando das doutrinas deste as conclusões lógicas e mais profundas. Mais uma vez: imprecisão que causa confusão (desculpe-me pela rima).

Em parágrafos mais à frente a declaração dos Padres mostra a intenção tradicional de João XXIII e Paulo VI na convocação e reabertura do Vaticano II, mas não mostra que a realização dessa intenção não se deu (se é que era mesmo essa a intenção de João XXIII e Paulo VI).

"E não poderia ser de outra maneira": com essa frase a declaração parece insinuar que a infalibilidade pontifícia, definida no Vaticano I (do qual se faz uma citação), teria lugar no Vaticano II. Eis a citação do Vaticano I: "O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo, pregassem uma nova doutrina; mas para que, sob a sua assistência conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da Fé." Ou seja, parece insinuar que Paulo VI, no Concílio Vaticano II, não pregou uma nova doutrina, mas conservou santamente e expôs fielmente o depósito da Fé. Exatamente o contrário do sentido a que sempre os Padres deram a esse texto do Vaticano I, pois ele apenas mostra que o que fez Paulo VI foi por-se à margem da assistência do Espírito Santo.

O parágrafo seguinte traz citações de D. Lefebvre e de D. Fellay que, fora do contexto de seus ensinamentos, parecem vir em apoio da idéia de que todos os textos do Vaticano II podem ser interpretados segundo a Tradição. Mas não é isso o que eles sempre ensinaram. Em prova do que digo, dou uma citação de cada um deles (e poderia encontrar muitas outras mais): 1) Palavras de D. Lefebvre: "É necessário que escolhamos: ou a liberdade religiosa tal como ela está no Concílio, ou o Syllabus de Pio IX. Eles são contraditórios e é necessário escolher." (cf. Fideliter 29-30 de junho de 1988); 2) texto de D. Fellay: "São as novidades da nova teologia, condenadas pela Igreja, que aparecem no Vaticano II (...) Querem nos fazer crer, hoje, que essas novidades estariam em desenvolvimento homogêneo com o passado? Elas foram condenadas (...). É preciso, portanto, necessariamente escolher." (cf. Carta de D. Fellay ao Cardeal Castrillón, de 26/6/2001). Ademais, sabemos que tanto D. Lefebvre como D. Fellay prudentemente não levaram adiante os contatos que eles tiveram com o Vaticano, pelo fato de, em ambos os casos, perceberem a má fé das autoridades romanas. Portanto, nessa época talvez eles fizeram pronunciamentos um pouco levados pela tensão do momento e que não expressam seu verdadeiro pensamento.

Depois a declaração cita um texto de Jean Madiran: "Aqueles que quisessem nos apresentar o ensinamento do Concílio (Vaticano II) (...) em ruptura com essa continuidade (continuidade viva de todos os Concílios), estariam nos apresentando uma pura invenção de seu espírito".Ora, D. Antônio, D. Lefebvre, D. Fellay e os Padres de Campos sempre nos ensinaram que há vários ensinamentos do Concílio Vaticano II em ruptura com a continuidade de todos os Concílios anteriores... Será que os Padres de Campos não pensam mais como D. Antônio e D. Lefebvre?

A seguir a declaração cita passagens do Cardeal Castrillón e de João Paulo II elogiando a Missa Tradicional, mas como um rito que "serve a muitas pessoas", como uma exceção. Para o restante do povo: a Missa Nova. Sempre aprendi dos Padres que a causa por que eles não acataram a ordem expressa de Paulo VI de deixar de celebrar a Missa Tradicional para em seu lugar celebrar a Missa Nova foi o fato de esta não ser aceitável e não pelo fato de a Missa Tradicional ser "uma autêntica riqueza da Santa Igreja", etc., etc. (como diz a declaração). Pois ainda que seja verdade que nenhum outro rito se iguale ao da Missa Tradicional, o problema não está aí. Ou seja, se nos apegamos à Missa Tradicional não é porque a Missa Nova seja um rito menos rico, etc., mas porque é um rito mau4. Mais uma confusão lançada nos espíritos...

Lamento muito ver que no tópico "Sobre a Santa Missa" da declaração só se fala dos excessos cometidos na Missa Nova, como se esses fossem os únicos males da mesma, ou seja, como se o próprio texto da Missa Nova, mesmo quando celebrada validamente, não constituísse (como realmente constitui) um afastamento impressionante da teologia católica do Sacrifício Eucarístico.

No tópico "O nosso pedido de perdão" a declaração explica o sentido dado pelos Padres ao texto de sua carta ao Papa. Mas como já observei (páginas atrás, quando comentava essa mesma carta), esse não foi o sentido entendido pelo órgão do Vaticano que publicou a carta do Papa, nem pela imprensa. Por isso, um pedido de perdão feito de um modo vago, como foi feito na carta ao Papa, foi peremptoriamente rejeitado por D. Antônio (será que se aplica a D. Antônio as frases da declaração: "Só os orgulhosos e teimosos, que pensam sempre estar certos, não admitem sequer a possibilidade de seus erros." ?) quando o Pe. Dollinger lho propôs.5

Será que (como diz a declaração) o Papa reconheceu "nossa posição doutrinária e litúrgica" de rejeição à liberdade religiosa, à Missa Nova, à colegialidade, ao ecumenismo (que o próprio Papa pratica), etc.? Este "reconhecimento", ao que parece, só se fez mediante a não exposição desse aspecto (com vistas a dar a entender a sua não existência?) de nossa posição.

Sempre defendemos a Tradição da Igreja, que se identifica simplesmente com a Verdade Revelada; mas a declaração diz que os Padres não arrefecerão o seu empenho "em defesa dos valores tradicionais"... Estranho modo de falar...

Quanto aos três parágrafos seguintes da declaração, já disse o que penso quando falava da carta ao Papa. E acerca do parágrafo que cita a declaração feita na Catedral, também já expressei meu pensamento.

Mais uma "deixa" que infelizmente encontrei nessa declaração foi o adjetivo de "opinião" indiretamente atribuído ao nosso combate de defesa da Fé.

Por fim, graças a Deus, tenho a consolação de ler: "... não nos comprometemos a nenhum silêncio cúmplice diante dos erros. (...) continuaremos a combater os erros que a Santa Igreja sempre condenou e combateu." Mas ainda aqui ficou uma sombra em meu espírito: e continuarão a combater aqueles que propagam os erros? Isso não foi dito... Realmente eu esperava que por ocasião da reunião ecumênica de Assis deste ano, semelhante à de Assis de 1986 (o mesmo objetivo: a obtenção da paz; o mesmo meio: a oração dos representantes de cada uma das "religiões" - inclusive pagãs; o mesmo escândalo: o Papa um entre diversos chefes religiosos; a mesma oposição à Encíclica Mortalium Animos de Pio XI 6), houvesse uma declaração de D. Licínio, como o fez D. Antônio e D. Lefebvre por ocasião da anterior reunião de Assis. Mas grande foi minha decepção: parece-me (dói-me dizê-lo, como um filho que vê o mal no pai) que houve nesse caso o "silêncio cúmplice" que na declaração dos Padres havia-se dito não haver...

Mais perto do final da declaração leio: "Aos que discordam de nós, nossa compreensão! Aos que nos atacam, o nosso perdão!" Não entendo esse "nós". Significa a posição dos Padres quanto ao "entendimento" com o Vaticano, ou a posição tradicional diante dos erros modernos? Parece-me ser o primeiro sentido. Nesse caso, se os Padres compreendem os que discordam dessa posição, por que não os seguem? Se perdoam os que os atacam, é porque estes estão errados? Mas se o sentido das frases é o segundo sentido, como compreendê-las? Nesse caso, os Padres compreendem os que não têm a posição tradicional? E perdoam os que nos (e a Nosso Senhor através de nós) atacam? - pois nesse caso atacam propriamente a doutrina de Nosso Senhor e não a nós como pessoas particulares. Sinceramente acho que as frases são imprecisas e deixam margem a interpretações desastrosas.

Como lhe disse no começo desta carta, o que mais me abalou, além dos textos (que acabo de expor), foram as fotos.

A foto de D. Licínio abraçando o Cardeal Castrillón: o dito Cardeal celebra a Missa Nova e aceita integralmente o Vaticano II, ou seja, é progressista, ainda que tenha aparências conservadoras. Que esse abraço haja ocorrido de modo imprevisto, compreende-se. Mas publicá-lo no site do Seminário, fazendo dele propaganda, é o que não compreendo. Quem o vê certamente dirá: - Os tradicionalistas agora são amigos dos progressistas. ("traduzindo": os tradicionalistas agora são amigos dos inimigos de Nosso Senhor e da Sua Igreja).

As fotos dos Padres reunidos com os bispos presentes à cerimônia: Cardeal Castrillón, D. Eugênio, o Núncio, D. Navarro e D. Roberto. Até os Padres mais antigos estão nessas fotos... E eles sabem muito bem quem são D. Eugênio e D. Roberto... Eles juntos com D. Navarro!!! E essas fotos são igualmente postas no site do Seminário! O que dirá o nosso povo? Que os Padres fizeram as pazes com D. Navarro e com D. Roberto? E, no entanto, estes não fizeram as pazes com Nosso Senhor... Eles não se arrependeram do mal que fizeram a D. Antônio e aos próprios Padres (ofensa não pessoal - perdoável, mas a Nosso Senhor e à Sua Igreja).

A foto de D. Eugênio inaugurando a placa comemorativa no Seminário: D. Eugênio, o grande perseguidor do Cônego Ludovico! O grande mentor de D. Navarro! O grande progressista com capa de tradicionalista (os Padres mais antigos sabem muito bem que isso é verdade...). Por que convidar esse homem para inaugurar a placa no Seminário? Igualmente a dita foto é posta no site do Seminário.

Para mim, essas fotos são um escândalo; e não compreendo como não o sejam para todos os que as vêem.

Sei que gastei sua paciência com tantas páginas. Mas nos dias de hoje, em que se perde tanto tempo em futilidades, não vejo porque considerar demasiado o tempo empregado no estudo de tão importante assunto.

Assim julgo haver exposto a impressão que me causou esses acontecimentos: estou triste, escandalizado e sem compreender a mudança inacreditável que ocorreu. Temo que de tanto os Padres falarem de modo diferente do que pensam, acabem por pensar como falam.

Considero os Padres de Campos como meus pais na Fé. E como um filho se envergonha em ver seu pai ébrio e ao mesmo tempo clama-lhe com veemência e dor: - Pai, pare de beber!, assim eu gostaria de clamar àqueles que me parece começaram a ficar inebriados com o canto da sereia da Roma modernista: - Pais, parem com isso! Digam alto e bom som (de maneira que todos ouçam: Papa, Cardeais, Bispos, Padres, todo o povo e a imprensa) que os senhores rejeitam a Missa Nova, a Dignitatis Humanae, a Gaudium et Spes, o ecumenismo de João Paulo II, o espírito anticatólico que se manifestou no Concílio, etc.. Tudo isso que os senhores sempre ensinaram! E então quero ver se a Roma modernista não vai tirar a máscara e mostrar os dentes!

Salve Maria!

            Em Jesus, Maria e José

                        Seu Ir. João Batista

U. I. O. G. D.

Notas:

1) Sei que há diferentes graus de progressismo e que muitos leigos, e mesmo padres, estão no progressismo mais por ignorância ou falta de apoio do que por convicção. Sei também que mesmo entre os progressistas convictos há matizes diferentes. Mas seja como for, sei que os princípios do progressismo são os mesmos que os do modernismo, que São Pio X qualificou de síntese de todas as heresias (Motu proprio "Praestantia Scripturae Sacrae"). É nesse sentido que atribuo a nota de herege aos progressistas que, com conhecimente de causa, aderem a essa moderna heresia, diferente das antigas e, ao mesmo tempo, condensado das mesmas.

            Sei também que D. Lefebvre nos advertia de julgar os progressistas como São Pio X o fazia em relação aos modernistas, levando em conta a infinidade de matizes dessa heresia.

2) Eis a narração que me fez o Pe. Camargo (da Fraternidade S. Pio X): O fato deu-se logo depois da visita do Cardeal Gagnon às nossas casas. Roma já tinha proposto um acordo. Mas os termos desse acordo eram um pouco ambíguos. Numa conversa com Dom Antônio, um fiel disse que essa era uma excelente oportunidade, porque Roma estava propondo um acordo que segundo a letra eles pensavam uma coisa, mas nós podíamos nos ater à letra que podia ser bem interpretada a nosso favor. Dom Antônio o olhou com estranheza e lhe disse à queima roupa: - Um católico não age assim. E o fiel disse que ficou muito contente pensando que era uma graça enorme ter um bispo que lhe chamasse a atenção, e lhe corrigisse nas coisas da Fé.

3) Não sei se você sabe, mas o Syllabus é um documento dogmático de Pio IX que condena, com anátema, vários erros modernos.

4) A Fraternidade S. Pio X editou um livro que expõe o espírito que animou aqueles que "fabricaram" a Missa Nova, livro com o qual os Padres ce Campos estavam de acordo, pelo que ouvi dizer. Ora, sei de fonte segura, que o Cardeal Ratzinger demonstrou seu desacordo profundo a respeito desse livro. Reação essa, que mostra que ele está convicto da bondade do espírito que inspirou a Missa Nova. Por outro lado, o mesmo Cardeal está tentando fazer uma "reforma da reforma litúrgica", ou seja "pentear os cabelos desgrenhados" da Missa Nova, "por em ordem" seus desregramentos, como, aliás, ele sempre fez em relação a todo o Concílio Vaticano II. Portanto, isso certamente se fará sem se abandonar o espírito da Missa Nova. Essa reforma, com certeza, irá iludir muitos e estou com grandíssimo temor de que os Padres de Campos sejam do número dos iludidos e acabem aceitando essa nova edição da Missa.

5) Eis a narração que me fez o Pe. Camargo: O Pe. Dollinger foi visitar Dom Antônio, já no fim de sua vida. Pois tinha a "caridosa" missão de não deixá-lo morrer "excomungado". Mas não disse sua intenção. Lá pelas tantas da conversa, o Padre Dollinger propõe a Dom Antônio que se reconcilie com o Papa, que pedisse perdão. Dom Antônio respondeu com veemência: - Pedir perdão do que? Não fiz nada de errado. O Padre lhe disse que isso era mera formalidade, que pedisse perdão por qualquer coisa, que isso não queria dizer nada. Era só para agradar. Dom Antônio respondeu com a mesma veemência: - De jeito nenhum. Não fiz nada de errado.

6) Para dissipar qualquer dúvida acerca da semelhança entre as duas reuniões, ouça o que diz o convocador da segunda, o próprio João Paulo II, na sua alocução de boas-vindas aos representantes das "religiões" em Assis: "...este encontro de oração pela paz. Ele nos lembra o encontro de 1986, do qual ele constitui como um prolongamento significativo. O objetivo é sempre o mesmo, a saber: rezar pela paz." (publicado na Agência Zenit). Ouça também o comentário acertado de D. Fellay: "Uma coisa é tentar estabelecer a paz civil (política) entre as nações mediante congressos, discussões, ações diplomáticas, intervenções de pessoas influentes de diversas nações e religiões. Outra coisa é a pretensão de se obter de Deus o bem precioso da paz através das orações de todas as falsas religiões." (Comunicado do dia 24/1/2002).


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